Surpreendentemente, na Olimpíada-2016, no Rio, uma estrela brilhou de maneira extravagante e bela na equipe brasileira de atletismo. Esperava-se uma boa atuação de Thiago Braz, mas ele foi além, ganhou a medalha de ouro no salto com vara, com o novo recorde olímpico, de 6,03 m.

Um feito extraordinário, a primeira vez que um sul-americano ultrapassou a barreira dos 6 m. No Brasil, a especialidade sempre registrara resultados incipientes nas provas masculinas e quase nenhuma expectativa despertava. No feminino, pouco tempo antes, até chamou a atenção com Fabiana Murer, uma estrela solitária, competente, mas que não decolou conforme sinalizavam expectativas otimistas.

O atletismo brasileiro nunca se firmou como potência no cenário mundial. Apesar disso, de tempos em tempos um ou outro craque desponta por aqui. A modalidade, no entanto, fez escola numa das especialidades, o salto triplo.

Desde a década de 50, com o recordista mundial e bicampeão olímpico Adhemar Ferreira da Silva, na sequência com o recordista mundial, prata e bronze olímpico Nelson Prudêncio, com o recordista mundial e duas vezes bronze olímpico João Carlos de Oliveira, e Jadel Gregório até recentemente, entre outros.

Essa tradição, porém, nunca encontrou uma mínima explicação que chegasse perto de desvendar o segredo do seu sucesso por estas bandas. Dádiva? Sem qualquer pista, resta aos esportistas em geral o conforto da alegria das vitórias.

Entretanto, o trabalho incansável dos técnicos e especialistas em atletismo é uma realidade. Um técnico estuda os movimentos do outro, que acompanha o do outro, que analisa os campeões, que observa os desempenhos rivais nos eventos internacionais e assim, sucessivamente, uma informação vai sendo atrelada a outra. Juntas geram progresso.

Fato incontestável é o Brasil como referência mundial no salto triplo. Dentro desse emblemático caminhar, uma nova esperança surge no horizonte do esporte nacional. Um triplista, ainda em formação, mas já atraindo os olhares da concorrência.

Trata-se do sul-matogrossense Almir Cunha dos Santos, 24, nascido em Matupá, com anos vividos na vizinha Peixoto Gomide e há tempos treinando em Porto Alegre, RS, onde defende a Sogipa. Seu técnico é um dos mais veteranos do país, com 37 anos dedicados ao setor, José Haroldo Loureiro Gomes, o Arataca, 60.

Almir praticava futebol, aceitou um chamado geral para treinar atletismo e gostou. Começou no salto em altura, depois teve uma fase no salto em distância. Trocou definitivamente pelo triplo há pouco mais de um ano, após participar numa mesma competição de três provas –altura, distância e triplo– para que o time que defendia acumulasse pontos.

A parceria Arataca-Almir dura nove anos. Na distância, a perna de impulsão era a esquerda, bem como no começo do triplo, mas mudou para a direita. Os resultados foram aparecendo. A história bonita e de sustentação empolgam o treinador, que insiste na tese do “pé no chão” e de atenção nas orientações.

Não que o atleta seja desobediente. Arataca destaca o esforço do triplista, comprometido em cuidar da forma física, sem se incomodar com renúncias na vida. Em contrapartida, o rendimento tem progressos, ainda mais com a retaguarda a ele oferecida pelo Sogipa, de especialistas em preparação física, fisiologia, nutrição, cuidados médicos e outros.

Almir está desvendando a nova especialidade. No início deste mês, em Birmingham, na Inglaterra, conquistou a medalha de prata no Mundial Indoor com o melhor salto de sua carreira: 17, 41m. Foi superado apenas pelo norte-americano Will Claye, vice olímpico em Londres e no Rio, que cravou 17,43 m. O português Nelson Évora, campeão olímpico em 2008, outro expoente do triplo, terminou em terceiro, com 17,40 m.

Nas competições a céu aberto (outdoor), Almir ainda engatinha, com a marca de 16,92 m, nessa fase mais ampla para a sua adaptação. A evolução é provável, mas impossível prever a extensão. Será tímida ou abrangente? O tempo dirá.

O sonho dele é participar das Olimpíadas de Tóquio-2020 e Paris-2024. Otimista, Arataca acredita que a tendência de Almir é evoluir. Tem muito espaço para aprimorar a técnica.

O primeiro recorde brasileiro no triplo foi do atleta João Rehder Neto, vencedor do Estadual de São Paulo, em 1933, com a marca de 13,15 m. Medalhas olímpicas e recordes mundiais vieram na sequência. Jadel Gregório chegou a 17,90 m, em 2007, o recorde vigente. O livro da história do triplo brasileiro continua aberto, à espera de novos e atraentes registros.



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