Muito da memória que se preserva depende da narrativa criada sobre o fato ou pessoa que protagonizou um feito. Alguns são peritos em fazer da própria história um épico cinematográfico. Outros, no entanto, embora dignos de menção em todos os anais, vão pouco a pouco caindo no esquecimento.

A vitória costuma ser, no esporte, um bom motivo para manter viva a memória de seu protagonista, mas, em alguns casos, nem medalha nem recorde é capaz dessa façanha. E assim, nomes e conquistas vão perdendo valor e as novas gerações crescem achando que a história começa com a entrada em cena dos atuais campeões.

Esta semana que passou deveria ter sido celebrada a memória de um dos grandes gênios do salto triplo brasileiro. Ele que ganhou a marca de sua modalidade no próprio nome e manteve um dos recordes mais longevos da história não foi celebrado, nem lembrado, nem reconhecido. Apenas esquecido.

João do Pulo nasceu João Carlos de Oliveira. Embora tuberculoso na infância, tornou-se atleta. Era alto, esguio e nem o voleibol, nem o basquetebol foram capazes de tirá-lo das pistas com as quais se identificou na adolescência quando começou a praticar o salto em distância e o salto triplo.

Pelas mãos do técnico Pedro de Toledo, o Pedrão, ele chegou aos Jogos Pan-Americanos do México, em 1975, onde cravou 17,89 m. Foi aí então que ganhou o apelido que o acompanharia mesmo depois da transição de carreira. Seu salto tornou-se um pulo para a história.

João seguia proximamente os feitos de outros dois triplistas brasileiros, dignos de monumentos que ainda não foram erigidos: o bicampeão olímpico Adhemar Ferreira da Silva e o medalhista de prata e bronze, Nelson Prudêncio. Nos Jogos Olímpicos de Montréal ganhou a medalha de bronze.

Tudo parecia escrito para a vitória nos Jogos Olímpicos de Moscou em 1980, edição olímpica marcada pelo boicote liderado pelos Estados Unidos. Há inúmeros casos relatados de falta de decoro, de lisura e de fair play por parte dos anfitriões daqueles Jogos.

Assim como as ginastas romenas, João ameaçava a supremacia soviética. Seus saltos precisos e poderosos podiam desbancar os donos da casa, para quem a festa estava preparada. E assim, 9 dos seus 12 saltos foram anulados, sendo que, em sua última tentativa, passou dos 18 metros, o que lhe valeria um novo recorde mundial.

Em uma época em que apenas o veredito dos juízes valia para a afirmação de uma marca, todos os esforços feitos durante a competição foram em vão. Mesmo diante de tamanha desfaçatez João conseguiu a medalha de bronze, metal que rendeu a ele e ao técnico Pedrão um gosto amargo de injustiça.

Depois desse episódio, ainda foi possível ser campeão sul-americano na Bolívia, com a marca de 17,05 metros. Mas, a vida parecia mesmo querer fazer João provar sua resiliência. Às vésperas do Natal de 1982, foi a Campinas para uma formatura e no retorno a São Paulo sofreu um acidente automobilístico que lhe custou a perna direita. Foram muitos dias entre a vida e a morte.

João do Pulo tornou-se então político. Foi eleito deputado estadual e depois reeleito. Mas, a política não lhe proporcionou os mesmos saltos que o esporte. O ostracismo após o acidente e o insucesso em outros empreendimentos o aproximou de hábitos de vida que o distanciavam ainda mais do campeão que havia sido, querido e respeitado. Só e desencantado com a vida, faleceu em 29 de maio de 1999, vítima de uma cirrose hepática.

Que sua memória seja preservada e reconhecida pelas novas gerações. João foi um gigante roubado.



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