Donald Trump disse ao dirigente chinês, Xi Jinping, no mês passado que os EUA abrandariam suas críticas quanto à abordagem chinesa com relação a Hong Kong, depois dos grandes protestos no território, a fim de retomar as negociações comerciais com a China.

O presidente americano assumiu esse compromisso quando os dois líderes se encontraram na conferência de cúpula do G20 em Osaka, no Japão, segundo diversas pessoas informadas sobre a reunião. A Casa Branca e o Departamento de Estado se recusaram a comentar.

Depois da reunião entre Trump e Xi, o Departamento de Estado informou que Kurt Tong, o cônsul-geral americano que está concluindo sua missão em Hong Kong, removeria diversos comentários sobre a China do texto de seu discurso final no polo financeiro asiático.

Tong havia dito que faria um discurso sobre Hong Kong que mencionaria a erosão das liberdades do território por ação da China, mas o veterano diplomata se viu forçado a atenuar o discurso, feito em 2 de julho.

Hong Kong é governado sob a fórmula de “um país, dois sistemas” desde que o Reino Unido entregou o território à China em 1997. Mas críticos dizem que Pequim vem adotando mão mais pesada com relação a Hong Kong nos últimos anos, diluindo as liberdades do território.

Nos últimos 30 dias, milhões de pessoas saíram às ruas para protestar contra um projeto de lei de extradição que, se aprovado, teria permitido pela primeira vez que suspeitos de crimes fossem transferidos da cidade ao território da China continental.

A chefe-executiva de Hong Kong, Carrie Lam, disse na segunda (8) que o polêmico projeto de lei de extradição está “morto”.

Autoridades dos Estados Unidos expressaram apoio aos manifestantes, mas Trump enfrentou críticas por dizer relativamente pouco. Mike Pompeo, o secretário de Estado, negou que o presidente estivesse adotando uma abordagem branda quanto aos direitos humanos a fim de ajudar a facilitar um acordo comercial.

Antes do G20, ele disse à rede Fox News que Trump era “um vigoroso defensor dos direitos humanos” e que Hong Kong provavelmente seria discutido na reunião.

 

Trump declarou em uma entrevista coletiva no G20 que EUA e China haviam chegado a um acordo para retomar as negociações comerciais, depois de um encontro “excelente” com Xi. Na semana passada, ele disse ter discutido Hong Kong “brevemente” com o líder chinês.

Questionado sobre se tinha uma mensagem aos manifestantes, Trump disse que eles estavam “buscando democracia” e, sem mencionar a China, acrescentou que “infelizmente alguns governos não querem democracia”.

 

Dennis Wilder, antigo assessor da Casa Branca para questões asiáticas, disse que a disposição de Trump de abrandar suas críticas à política da China com relação a Hong Kong era “coerente com seu foco singular nas questões econômicas, no relacionamento bilateral com a China”. 

Wilder acrescentou que o presidente havia “abrandado consistentemente as abordagens mais duras na política dos EUA com relação à China”, quanto a diversas questões, entre as quais “as críticas ao histórico de direitos humanos da China em Xinjiang”, e que isso “frustrava a linha dura com relação à China” dentro de seu governo.

 

Tong, que se aposentará nesta sexta (12), também devia fazer uma palestra no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington, na quarta. Mas o evento foi adiado de última hora, o que levou a algumas afirmações de que o adiamento havia acontecido a pedido do Departamento de Estado —que disse, no entanto, que a palestra foi adiada para garantir seu planejamento e coordenação.

Uma pessoa familiarizada com a organização da palestra disse que o governo Trump era mais agressivo que seus predecessores quanto a patrulhar os pronunciamentos de seus funcionários.

Segundo a fonte, palestrantes das áreas de defesa e de diplomacia cancelam eventos ou são instruídos a não responder perguntas ou a não falar oficialmente em cerca de metade das ocasiões.

Nos termos da Lei de Política para Hong Kong, de 1992, os EUA permitem que Hong Kong seja tratado como entidade não soberana distinta da China, no que tange a questões comerciais e econômicas. Os EUA já haviam alertado que o projeto de lei de extradição colocaria esse status especial em risco. 

Mas Ho-fung Hung, especialista em China na Universidade Johns Hopkins, disse que Trump “vê Hong Kong como uma peça de barganha”.

 

Anson Chan, antigo diretor do serviço civil de Hong Kong, disse que o território esperava que os EUA cobrassem que a China cumpra suas obrigações de tratado de Hong Kong, acrescentando que a questão interessa tanto a Washington quanto aos moradores locais.

“Hong Kong continua a ser um marco de esperança quanto a uma China mais liberal, aberta e tolerante, e se a democracia, incluindo o direito de voto pleno, deitar raízes em Hong Kong, o lugar servirá como um campo de provas singular para a introdução da democracia na China continental”, disse.

Na segunda, o vice-presidente Mike Pence e Pompeo se reuniram com Jimmy Lai, um editor pró-democracia em Hong Kong, em uma atitude condenada por Pequim. O Ministério do Exterior chinês disse que os EUA “interferiram repetidamente nos assuntos de Hong Kong, que são assuntos internos da China”.

 

Tradução de Paulo Migliacci



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