Folha montou para a Copa do Mundo de 1994 um time diverso de colunistas, entre os quais se destacavam os então treinadores Telê Santana, do São Paulo, e o holandês Johan Cruyff, do Barcelona (ESP). Mas a dupla mais irreverente convocada para comentar o Mundial foi a de Nando Reis e Marcelo Fromer (1961-2001), músicos da banda de rock paulistana Titãs.

Com colunas publicadas aos sábados, domingos e segundas-feiras durante o torneio, Reis e Fromer –era assim que assinavam o espaço– não pouparam críticas ao que entenderam como pobre o futebol apresentado pela seleção de Carlos Alberto Parreira, estendendo a insatisfação ao conformismo de torcedores com o desempenho do Brasil e à celebração de parte desses torcedores com o fracasso da Colômbia, que viam de certa forma como a equipe capaz de recuperar um futebol agradável aos olhos.

São-paulinos, também aproveitaram a coluna para defender Raí, ídolo tricolor que acabou perdendo espaço no time de Parreira com a competição em andamento.

Destaques das colunas da dupla em 1994

Abaixo, confira trechos de algumas das colunas de Marcelo Fromer e Nando Reis, que começaram a ser publicadas na Folha em 25 de junho e foram até 18 de julho, este o dia seguinte à conquista do tetracampeonato nos Estados Unidos.

“Não há nada que desculpe a total ausência de futebol nos pés dos ex-craques colombianos. Mas o que chama a atenção são os novos defensores do futebol tímido. Como baratas afluindo dos bueiros no verão, surgem agora os adeptos do futebol humilde, que descobriram o inestimável valor do futebol semiprecioso do Dunga.”

Publicada no dia 26 de junho, na coluna intitulada “A segunda dança dos saprófitos de cadáver”, os músicos dos Titãs criticavam os torcedores que secaram a Colômbia, àquela altura eliminada da Copa do Mundo após duas derrotas nos dois primeiros jogos. No entendimento da dupla, os colombianos, “cujas cores amarelas do uniforme chegaram a substituir no imaginário de alguns a nossa jaqueta canarinho”, eram os principais candidatos ao resgate do futebol arte. O que certamente eles não enxergavam na seleção brasileiro.

“É incrível perceber que as pessoas se utilizam muito do argumento ‘de que adiantou jogar bonito em 82 se não ganhamos nada?’ –como se tivéssemos vencido alguma coisa em 74 ou 90, por exemplo. Com medo de repetir 82, o Brasil preferiu trocar a elegância pela aparente eficiência desse futebol de resultados.”

Um dia antes do empate em 1 a 1 com a Suécia depois de vencer as duas primeiras rodadas (Rússia e Camarões), Fromer e Reis criticavam, na coluna de 27 de junho, o desempenho da seleção na Copa e o que eles viam como a insistência de Parreira somente no resultado, e não na forma como chegar a ele. Essa seria basicamente a tônica da coluna em toda a competição, inclusive após o título ser confirmado diante da Itália.

“A discussão é a seguinte: quem é Zagalista e quem é Gersoniano. Os Zagalistas acreditam ter o meio infalível para vencer a Copa: em primeiro lugar, não tomam gol, para depois pensar em fazê-lo. Os Gersonianos ainda sonham com o futebol ofensivo, que procura o gol e impõe sua supremacia. Queira Deus que o Teimoso dê o braço a torcer e faça o seu time jogar para frente. Nós poderíamos ser os Globetrotters do futebol. Bastaria querer.”

​No dia 3 de julho, véspera de Brasil x Estados Unidos pelas oitavas de final, os dois Titãs propõem na coluna “Entre os Gersonianos e a maré de Zagalistas” um novo debate de estilos, desta vez classificando duas correntes distintas de visão sobre o futebol. Evocam também a figura de Deus para que Parreira, pela primeira vez chamado de “Teimoso” pela dupla, se desprendesse das amarras defensivas para guiar o time ao tetra –Zagallo também ganhou o apelido de “Velho Zaga” na coluna dos roqueiros.

“Vejamos o caso do Raí, há pouco tempo tido como o maior craque do país, campeão de todos os torneios que disputou. Ele nunca conseguiu reproduzir, dentro dessa seleção, o seu melhor futebol. Acabou por ser afastado de uma maneira cínica e sobretudo inútil, demonstrando que dentro desse time cabem poucos jogadores. Ele [este time] representa apenas o Parreira. O problema é que o Parreira não representa nada.”

O Brasil venceu a Holanda por 3 a 2 e se classificou à semifinal da Copa. Muitos que antes estavam céticos passaram a acreditar que, após o triunfo sobre os holandeses, o tetra era de fato palpável. Fromer e Reis, porém, não abriram mão da linha de raciocínio recorrente sobre Parreira e aproveitaram a coluna para defender Raí, que iniciou o Mundial como titular e acabou na reserva a partir do mata-mata.

“Apesar de todas as críticas cabíveis a nossa seleção, a esta altura do campeonato nosso escrete faz por merecer a taça. Tomara que o tetra sirva para que, com calma, após a euforia merecida da vitória, possamos ver de que maneira conseguiremos atingir o melhor do futebol brasileiro. Do nosso ponto de vista, ele poderia tranquilamente aliar a disciplina com algumas pitadas de ousadia.”

 

Mais próximo do final da Copa do Mundo, Marcelo Fromer e Nando Reis afrouxaram um pouco o repertório de críticas a Parreira e Zagallo. Mas não sem pontuar a insatisfação com o futebol da seleção que, na visão deles, em coluna publicada no dia da final, 17 de julho, era a favorita contra uma Itália que era “de se perguntar como a Azzurra com este time mal preparado fisicamente e desordenado taticamente está na final disputando o tetra com o Brasil”.

“A incontestabilidade da campanha brasileira não nos faz demover de algumas opiniões. Ninguém nos convence de que foi este esquema medroso que garantiu nosso sucesso nesta Copa. Dentre as grandes frases proferidas durante a Copa, gostaríamos de lembrar uma delas. Time que tem Romário, pode se dar ao luxo de ter Parreira. E se isso é o que de melhor podemos apresentar num campeonato mundial, com todos os valores que temos, e você é mais um que concorda com isso, nós podemos até estar assim com Arisco, mas não assim com você.”

“Quase morremos, mas somos campeões” foi o título da última coluna dos Titãs na Folha ​durante a Copa do Mundo. Publicada um dia após a decisão, vencida sobre a Itália nos pênaltis, resgatava a tônica do espaço: críticas a Parreira e à forma como o Brasil chegou ao tetracampeonato. Somente Bebeto e Romário mereceram, na opinião deles, menção positiva na coluna do título, que termina com a citação à marca Arisco, da qual Xuxa era garota propaganda na época do Mundial.



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