A conquista do tetracampeonato marcou a carreira e a vida de uma geração de jogadores. Liderado por um grupo magoado com as críticas recebidas após a queda na Copa 1990, o time impôs regras, pediu privacidade e usou um clima de “nós contra eles” para se motivar.

Quem esteve naquela equipe jura que havia harmonia entre os atletas. A rigidez tática em campo e no planejamento tinha brechas abertas para Romário, craque do time. 

Testemunhas da conquista relataram a Folha causos daquele título conquistado há 25 anos nos EUA.

 

ROMÁRIO: DEDO NOS PÊNALTIS E DRIBLES FORA DO CAMPO

Após 120 minutos de bola rolando com 0 a 0 no placar, uma disputa de pênaltis iria decidir a final entre Brasil e Itália. Batedores oficiais, Márcio Santos e Bebeto estavam prontos. Dunga e Branco toparam o desafio. Faltava um nome para fechar a lista.

“Foi quando eu cruzei o olhar com o Romário”, conta Parreira. “Nem chegamos a falar. Ele levantou o dedo e entrou para a lista”. Romário nem treinou tantos pênaltis, diz o técnico. “Ele aceitou o desafio. Na hora ele não correu. Corajoso, ele foi muito corajoso.”

O atacante foi o segundo na lista. Chutou no canto direito do goleiro e viu a bola bater na trave antes de entrar. O Brasil venceu a disputa por 3 a 2. Márcio Santos errou, assim como Baggio. Taffarel defendeu chute de Massaro.

Romário só foi incluído na equipe de Parreira no último jogo das eliminatórias, contra o Uruguai, quando o Brasil garantiu a vaga, em 1993. Antes, reclamou de ser reserva em amistoso contra a Alemanha, em 1992, e ficou um ano sem ser convocado.

Na Copa, Romário marcou gols em campo e deu seus dribles fora dele. Em entrevistas anos após o título, o atacante diz que fugiu da concentração duas vezes: antes da estreia, contra a Rússia, e na véspera do último jogo da primeira fase, diante da Suécia. Ele marcou gols nas duas partidas. 

“A gente tem que saber lidar com a situação, né? “, diz rindo o ex-lateral Jorginho. “Mas se o cara resolve dentro de campo, meu amigo, não tem nenhum problema. Isso é um problema dele. Se ele era casado ou não era problema dele. A gente estava feliz com ele dentro de campo.”

O lateral afirma que Romário era um dos mais dedicados nos treinos. “Ele estava muito focado com o grupo. Nas horas de folga, fazia o que queria”, completou o ex-jogador.

“Na concentração nunca teve nada [de festa] porque tínhamos uma segurança meticulosa”, diz Parreira. “Nunca fui babá de jogador e trabalho na seleção brasileira desde 70. Isso sempre foi assim.”

 

A CARTILHA DOS DINOSSAUROS

Antes do Mundial, um grupo com os atletas mais experientes da seleção definiu algumas regras. Tachados como perdedores após a derrota na Copa de 1990, na Itália, quando o Brasil foi eliminado pela Argentina nas oitavas, Ricardo Rocha, Dunga, Jorginho, Branco, Romário, Taffarel e Müller lideravam a turma batizada de “dinos”, em referência a dinossauros.

Foram eles, por exemplo, que definiram como ficaria dividida a premiação em caso de título. O montante seria igualmente repartido entre todos os 40 integrantes da delegação brasileira, que incluía jogadores, comissão técnica e funcionários da CBF. A ideia partiu de Romário e foi endossada pelo grupo.

Outra regra era a restrição ao acesso na concentração da equipe. Não foi permitida a entrada de amigos e familiares dos atletas. Entrevistas exclusivas eram feitas em outro local, na tenda de um dos patrocinadores.

“A gente perdeu em 1990 e sofreu muito. Fomos muito criticados por fazer parte da ‘era Dunga'”, lembra Ricardo Rocha.

A definição “era Dunga” surgiu na Copa de 1990, após Sebastião Lazzaroni afirmar que o volante era o símbolo do futebol brasileiro de então pela sua disciplina em campo e o compromisso com a vitória.

“Tomamos muito pau. Aquilo ali marcou aquela geração”, afirma o ex-zagueiro.

TAÇA E MUAMBA NA VOLTA

O retorno da equipe campeã ao Brasil foi conturbado. O avião que levou a seleção saiu do Brasil, antes do Mundial, com 3,4 toneladas de bagagem e voltou dos EUA, no dia 20 de julho, com 14,4 toneladas, segundo dados da Procuradoria Federal.

O caso ficou conhecido como “voo da muamba” e foi revelado pela Folha.

O lateral Branco, por exemplo, trouxe na bagagem uma cozinha completa, avaliada em US$ 18 mil. O limite legal era US$ 500 por pessoa. O então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, comprou nos EUA equipamentos para a sua choperia, a El Turf, no Rio.

As compras de quem estava no voo da CBF chegaram pelo aeroporto internacional do Rio sem passar pelo controle da alfândega. Para isso, Teixeira pressionou os fiscais da Receita Federal. Disse que se houvesse a inspeção, os jogadores devolveriam suas medalhas e o desfile dos tetracampeões seria cancelado.

O cartola ligou para o então ministro da Casa Civil, Henrique Hargreaves, e para Rubens Ricupero, na época à frente da Fazenda. Depois do contato, as bagagens foram liberadas. O episódio culminou com o pedido de demissão de Osíris Lopes Filho, secretário da Receita Federal.

Ao ser questionado sobre o episódio, o técnico Carlos Alberto Parreira falou que o elenco estava desgastado com a viagem dos Estados Unidos e tinha passado por Recife e Brasília antes de desembarcar no Rio.

“Veio uma ordem da Receita para olhar as bagagens, mas não tinha o que esconder. Falaram que tudo ficaria ali para depois ser feita a vistoria e o grupo se revoltou em ter que esperar. Além do mais os torcedores estavam invadindo o aeroporto querendo ver a seleção. Um grande tumulto”, falou o ex-treinador 

No mês seguinte, a CBF pagou à Receita Federal R$ 34 mil de impostos por parte da bagagem que a delegação brasileira trouxe dos Estados Unidos. A quantia é muito inferior ao prejuízo de US$ 1 milhão, valor inicialmente estimado como imposto de importação devido.

Após quitar a dívida, a assessoria da entidade informou que o valor seria debitado de cada jogador. Quem mais pagou impostos foi Branco R$ 8 mil (R$ 45.8 mil em valores atuais), seguido de Bebeto, R$ 5 mil (R$ 28.2 mil). Parreira desembolsou R$ 3.800 (R$ 21.4 mil) e Ricardo Teixeira R$ 1.040,00 (R$ 5.8 mil)

Em agosto de 2009, em ação movida pelo Ministério Público Federal, que tramitou na 22ª Vara Federal Civil do Rio, Teixeira foi condenado com base na Lei nº 8.429/92, que prevê punição para quem “mesmo não sendo agente público, induza ou concorra para a prática de ato de improbidade ou dele se beneficie sob qualquer forma direta ou indireta”.

O dirigente teve a suspensão de seus direitos políticos por três anos devido aos prejuízos causados pelos cofres públicos em razão da liberação das bagagens.

GOLEIROS CINEGRAFISTA E PINTOR

Antes da Copa, o ex-goleiro Gilmar teve a ideia de filmar os bastidores da seleção. Autorizado por Parreira, gravou não só treinos, mas também o ambiente em treinos e na concentração.

“Eu documentei tudo. Isso nos uniu muito. A gente estava preparando para entrar na história. Eu tenho oito horas de filmagens internas de tudo o que aconteceu”, conta o goleiro, reserva na equipe.

O passatempo virou motivo de piada anos depois. Em 2016, o senador Romário (Pode-RJ) criticou os ex-colegas de seleção Dunga, então técnico da seleção, e Gilmar, na época dirigente da CBF. 

“Não se convoca mais os melhores, há interesses por trás”, afirmou o ex-jogador e senador. 

Os dois denunciaram o ex-atacante no Conselho de Ética do Senado. Alegavam terem sofrido “declarações ofensivas à honra”. O caso foi arquivado.

Romário não perdeu a chance de ironizar o ex-goleiro. “Um foi campeão do mundo jogando (Dunga) e o outro foi cinegrafista da Copa de 1994”, se referindo a Gilmar. 

Outro reserva do gol, Zetti aproveitava o tempo livre na concentração para pintar. 

“Ele ficava no quarto pintando quadros, paisagens, eu até dava palpite, foi muito boa a convivência”, lembra Mauro Silva.



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