Palco de construção de consensos sobre questões econômicas e geopolíticas desde 1975, a cúpula do G7, o clube dos países mais industrializados do mundo, chega a sua 45ª edição neste sábado (24) em crise de identidade.

A agenda doméstica devora qualquer vislumbre de concertação dos países participantes em torno de soluções para dilemas globais. 

EUA, Reino Unido, Alemanha, França, Itália, Japão e Canadá andam ensimesmados, entregues a turbulências internas dos mais diversos feitios.

Em Biarritz (sul francês), talvez só a resposta aos incêndios em curso na Amazônia seja capaz de congregar os sócios do grupo em torno de um foco comum —ainda que o retrospecto ambiental de Donald Trump e sua aparente simpatia por Jair Bolsonaro sugiram que os americanos não irão subscrever reprimendas a Brasília.

No rol do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, há, de início, a guerra comercial entre EUA e China, que teve nesta sexta (23) mais um capítulo.

Os chineses anunciaram novas tarifas sobre 5.000 artigos americanos, em retaliação aos US$ 300 bilhões (R$ 1,1 trilhão) em tributos que passarão a ser cobrados pelos EUA.

A queda de braço e o clima de instabilidade que ela enseja repercutem globalmente, afetando economias como a alemã, altamente dependente de exportações —o PIB da maior potência europeia retraiu no segundo trimestre de 2019.

O clima plúmbeo em Berlim é reforçado pelo fato de a chanceler Angela Merkel, no posto desde 2000, ter anunciado a intenção de deixá-lo ao fim de seu mandato, em 2021.

Já há quem acredite que o folhetim do brexit não termine até lá. Em curso desde 2016, quando um plebiscito definiu a separação, o vaivém sobre os termos do adeus britânico ganhou novo “roteirista-chefe”, o premiê Boris Johnson.

Primeiro-ministro desde o fim de julho, ele se mostra disposto a levar o processo a termo até 31 de outubro, com ou sem aprovação do acordo de “divórcio” por seu Parlamento.

O líder conservador insiste para que a UE aceite tirar do pacto o “backstop”, mecanismo concebido para evitar a volta de controles alfandegários na fronteira entre a Irlanda (membro da UE) e a Irlanda do Norte (integrante do Reino Unido) —caso não se encontre solução melhor.

A ideia de uma união aduaneira temporária é inconcebível para Londres, que vê aí o risco da permanência de uma ingerência europeia em sua política comercial.

Johnson deixou claro, em visitas a Macron e Merkel nesta semana, que não há entendimento possível enquanto o “backstop” não for descartado.

Foi instado, com maior (em Berlim) ou menor (em Paris) simpatia, a sugerir uma alternativa nos próximos 30 dias, a tempo da reunião de setembro do Conselho Europeu (colegiado de líderes).

Na verdade, trata-se de um jogo de cena bem ensaiado entre França e Alemanha para não serem acusados de ter forçado o “no deal”, a saída sem acordo.

Até porque, na sexta, deputados britânicos partidários da ruptura brusca disseram que o “backstop” não é o único empecilho.

De seu lado, a Itália envia ao G7 um premiê demissionário, Giuseppe Conte, que pediu as contas depois de a Liga, partido de ultradireita que governava em coalizão com o Movimento 5 Estrelas, retirar-se da gestão. Roma também está às voltas com uma economia anêmica e uma dívida pública fora de controle —que representa mais de 130% de seu PIB.

Os solavancos atingem até o ameno Canadá. O premiê Justin Trudeau, até há pouco tido como modelo de liderança carismática e idônea, está em maus lençóis desde que a procuradora-geral do país disse ter sofrido pressão dele para não levar adiante um processo contra uma grande empreiteira nacional.

Na semana passada, um relatório independente confirmou que ele infringiu a lei que rege o conflito de interesses na administração pública. Devido ao imbróglio, as intenções de voto no partido Liberal (governista) nas eleições de outubro deste ano derreteram.

Por fim, o Japão viu na quinta (22) a Coreia do Sul cancelar um acordo de cooperação militar, em mais uma etapa da recente escalada de tensões entre os dois países. Com a decisão, as desavenças políticas e comerciais entre Seul e Tóquio agora se estendem para algumas das questões de segurança mais sensíveis da região.

A crise no estreito de Hormuz (golfo Pérsico) após a apreensão de um petroleiro britânico pelo Irã também estará na pauta do G7. O episódio se insere num contexto de deterioração das conversas para salvar o acordo sobre o programa nuclear de Teerã após a saída dos EUA, em 2018.

O anfitrião Macron tentará obter de Trump o relaxamento de sanções que voltaram a ser impostas ao governo iraniano —em troca de um compromisso dos persas de respeitar os termos do pacto em vigor.

A Rússia, suspensa do clube (então G8) em 2014, depois de invadir a Ucrânia e anexar a Crimeia, também estará nos corações (ou talvez num só coração, o de Trump) e mentes em Biarritz. O presidente americano, apesar de ter retirado seu país do tratado de armas de alcance intermediário com a Rússia (que respondeu fazendo o mesmo), faz lobby pela volta de Moscou.

Alemanha e Grã-Bretanha disseram nos últimos dias, porém, que ainda não é o momento de readmitir Putin. Macron recebeu o russo nesta semana para tentar pavimentar um regresso, mas nada concreto deve sair da cúpula de agora.

Por causa das divergências, não haverá na segunda (26) uma declaração final referendada pelos líderes. Da última vez que se tentou isso, em 2018, no Canadá, Trump retirou sua anuência depois da divulgação do comunicado e ainda acusou Trudeau de desonestidade.

A verdade é que o G7 é hoje uma sombra do que já representou. Congrega 40% do PIB mundial e 12% da população.

Talvez por isso Macron tenha convidado ao encontro seus homólogos na Índia, na Austrália, no Chile e na África do Sul. Em suas palavras, em entrevista coletiva na quarta (21), é tempo de “defender um multilateralismo contemporâneo, renovando-o e não cedendo ao embrutecimento do mundo”.



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