A pedido da Folha, a romancista venezuelana ​Karina Sainz Borgo, autora de “Noite em Caracas” (ed. Intrínseca) e convidada da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) deste ano, escreve o conto “Tesoura”, dividido em três partes e baseado na crise em seu país natal.

Avancei pelos corredores da clínica Sagrario com a boca feito um revólver: quente e carregada, procurando em quem atirar. Clara Baltasar não comparecia a seu trabalho na prefeitura havia três semanas. Foi o que me disseram os guardas quando fui procurá-la. Três mulheres a haviam surpreendido a duas quadras do edifício municipal, arrastaram-na para dentro de um 4×4 com vidros fumê e lhe deram chutes e socos. Deixaram-na na porta de casa como um lixo ensanguentado, como se fosse uma mensagem. Da próxima vez você não volta viva. Era o que significava aquele gesto. A compaixão como outra forma de crueldade. Não matá-la, para prolongar a agonia. 

“Crime comum. Mas ninguém viu nada, ninguém ouviu nada”, disse um vigilante da prefeitura, um homem de bigodinho delineado que falava com os lábios pequeninos, apertados como um ânus, essa careta de falsa discrição que as pessoas levavam no rosto. A cicatriz da vergonha e do medo.

Foi difícil localizar Clara Baltasar. Uma enfermeira que parecia não ter dormido havia semanas me recebeu com um maço de folhas escurecidas na mão.

“Quem a senhora está procurando?”

“Clara Baltasar.”

“Hmmm.” Ela revirou os papéis por uns instantes. “Está na UTI. A senhora é da família?”

“Não.”

“Então não pode subir.”

“Mas ela… como está?”

“Não posso dar essa informação.”

“Ela está mal?”

“Está viva”, disse a enfermeira, antes de desaparecer no corredor de ladrilhos imundos.

Longas filas de pessoas enchiam as escadas. Pessoas quebradas e sem gesto. Homens, mulheres e crianças que esperavam sua vez na antessala do além. Todos pareciam magros, castigados pela fome dos dias, paralisados em algo semelhante à fúria dos que já não se recordam de ter vivido melhor.

Havia três grupos. Os que esperavam para pedir para ser colocados na lista de espera dos atendimentos ambulatoriais; os que esperavam para pedir uma cirurgia maior, e aqueles que, já tendo sido aceitos para ser atendidos, cumpriam sua vigília em silêncio até que alguém os atendesse ou os conduzisse a algum lugar distante do corredor cheio de pessoas acampadas ali havia semanas.

O ambiente, um pouco pior do que a clínica onde minha mãe morreu, estava carregado de babas e secreções, um cheiro flatulento de pessoas em putrefação. De quando em quando passava um enfermeiro com uma pasta cheia de folhas e lia em voz alta: Amador Rodríguez; Carmen Pérez; Amor Pernalete…

Algumas pessoas levantavam a mão e erguiam a cabeça, outras se punham em pé para exigir uma explicação do porquê de estarem chamando estes e não aqueles. Os derrotados eram os piores. Apagados deles mesmos, como eletrodomésticos avariados. Um, dois, três, quatro, cinco dias, seis, sete, oito, nove, dez. Pegue seu número. Volte amanhã. Agora não, amanhã. Usando aventais listrados de tecido azul, os enfermeiros mandavam as pessoas voltar a seus lugares e esperar. Vir de tão longe para morrer esperando.

“Nos prometeram que as coisas iriam mais rápido”, disse uma mulher à sua filha.

Prometeram. Que nunca mais ninguém ia roubar, que tudo seria para o povo, que cada um teria a casa de seus sonhos, que nada de ruim voltaria a acontecer. Cansaram de prometer. As súplicas não atendidas se desfizeram no calor do ressentimento que as alimentava. Nada do que acontecia era responsabilidade dos Filhos da Revolução. Se as padarias estavam vazias, o culpado era o padeiro. Se faltavam medicamentos na farmácia, até a mais elementar caixinha de anticoncepcionais, o farmacêutico era o responsável. Se chegávamos em casa exaustos e esfomeados, com dois ovos num saquinho, a culpa era de quem naquele dia tinha conseguido o ovo que nos faltava. A fome desencadeou a longa lista de ódios e medos. Nós nos descobríamos desejando o mal ao inocente e ao carrasco. Éramos incapazes de distinguir entre eles.

Começou a crescer dentro de nós uma energia desorganizada e perigosa. E com ela a vontade de linchar o opressor, de cuspir no militar contrabandista que revendia os alimentos regulados no mercado negro ou no espertinho que pretendia nos roubar um litro de leite nas longas filas que se formavam diante das portas de todos os supermercados nas segundas-feiras. Coisas funestas nos deixavam felizes: a morte repentina de algum figurão afogado sem explicação no rio mais caudaloso do planalto central, a explosão em pedacinhos de algum promotor corrupto quando uma bomba escondida sob o assento de seu 4×4 de luxo fazia contato depois de ele virar a chave no contato. Esquecemos a compaixão, porque queríamos colher os espólios do que tinha dado errado.

Nos rostos daqueles homens e mulheres se desenhava um gesto que comecei a reconhecer no meu quando me olhava no espelho: uma fenda no meio dos olhos. Os dias se pareciam mais com a administração de uma guerra que com a gestão da vida: algodão, gases, medicamentos, leitos sujos, bisturis cegos, papel higiênico. Comer ou curar-se, nada mais. A pessoa seguinte na fila era sempre um potencial adversário, alguém que possuía mais. Os que viviam disputavam as sobras com unhas e dentes. Brigávamos inclusive por um lugar onde morrer.

Subi andando até o sétimo andar. Como na clínica onde minha mãe morreu, aqui tampouco os elevadores estavam funcionando. Em cada andar do edifício encontrei moribundos e feridos, crianças com buracos na testa ou idosos com pressão alta. Amontoavam-se uns e outros, esmagados pela desgraça.

Na sala de espera da UTI havia duas moças. Tinham minha idade, mas pareciam velhas à força.

Descansavam sobre uma fileira de cadeiras de plástico azul. Carregavam cobertores, comidas envoltas em papel-alumínio e sacolas com lençóis dobrados. Como acontecera comigo algumas semanas antes, elas tinham erguido seu próprio hospital de campanha, a guerra sem tanques de quem acode para acompanhar a morte dos seus. Andei até a mais jovem. A outra dormia com a cabeça apoiada sobre seu ombro. Calculei que deviam ser irmãs.

“Você é a filha de Clara Baltasar?”

“Quem é a senhora? O que quer?”

“Meu nome é Adelaida Falcón.”

“Mmmmm…”

 “Sua mãe me ajudou a juntar dinheiro para pagar o tratamento da minha. Fui procurá-la na prefeitura. Me disseram que ela estava aqui.”

“Não sei do que a senhora está falando.”

“Só quero agradecer a ela.”

“Vá embora.” Ela se levantou, despertando a outra.

“O que aconteceu, Leda? Quem é esta?”, perguntou sua irmã, esfregando as remelas dos olhos.

“Me chamo Adelaida Falcón. A mãe de vocês, Clara Baltasar, me ajudou a juntar dinheiro para pagar o tratamento da minha”, repeti.

“Vá embora, por favor. Não conhecemos essa senhora. Não sabemos de quem a senhora está falando.”

“Só vim para dizer a Clara que minha mãe morreu. Eu trouxe isto.” Estendi duas caixinhas de antibióticos.

Elas se entreolharam sem dizer nada. Deixei os antibióticos na única cadeira vazia. Dei meia-volta e me afastei.

Clara Baltasar, a assistente social que tanto ajudava a um moribundo como conseguia comida para uma família, estava morta ou prestes a morrer de uma surra que os comandos revolucionários lhe deram para servir de lição exemplar. Deixei para ela os medicamentos que minha mãe morreu antes de usar.

Desci os sete andares da mesma forma que os subi, a pé.



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