Charles Allie tem 71 anos, e é veloz.

É bem provável que ele corra muito mais rápido que você —mais rápido, aliás, do que você tenha sido em qualquer momento de sua vida. No ano passado, na Espanha, ele bateu por mais de um segundo o recorde mundial nos 400 metros para sua faixa etária, que já lhe pertencia. Ele completou a volta na pista de corrida em 57s26.

Muita gente, mesmo em seus dias de maior velocidade, jamais chega perto de correr os 400 metros em menos de um minuto. Allie supera essa marca desde a infância. Agora, derrota seus concorrentes —os outros homens mais rápidos do mundo em sua faixa de idade— por vantagens de 30 a 40 metros.

Ele também estabeleceu o recorde mundial dos 200 metros, na categoria mais de 70 anos, em 2018. Isso não impressiona? No World Masters Athletic Championships, um campeonato de atletismo para veteranos, ele venceu duas provas de revezamento na categoria dos 65 anos de idade. Naquela categoria, Allie correu mais rápido do que praticamente todo mundo exceto seu bom amigo Bill Collins, que era um dos maiores velocistas dos Estados Unidos na década de 1970.

“Sou viciado em velocidade, é só”, disse Allie sentado à mesa da cozinha de sua casa em Pittsburgh, em uma conversa matinal recente. Ele estava comendo frutas e mingau de aveia no café da manhã.

O atletismo é uma categoria para atletas fora da escala. Velocistas não deveriam ter 1,96 metro de altura. E aí surgiu o jamaicano Usain Bolt e reescreveu os recordes. Superar o tempo de duas horas na maratona pareceu impossível por muito tempo. Agora, Eliud Kipchoge, do Quênia, está a 99 segundos dessa marca. O recorde de Jackie Joyner-Kersee no heptatlo perdura há 31 anos.

Allie tem pernas incrivelmente rápidas e um corpo que envelhece assustadoramente devagar. Ele diz que seu peso não variou em mais de 1,5 quilos nos últimos 25 anos. Allie raramente adoece, e nunca passou por uma lesão grave. Em 2008, teve problemas no tendão de Aquiles. No momento, enfrenta dores no quadril, diz.

Allie treina o tempo todo, mas um pouco mais agora. Quer bater o recorde mundial dos 100 metros rasos, sua prova de velocidade mais fraca, na categoria 70 anos ou mais do campeonato nacional de masters que acontece em Ames, Iowa, neste final de semana. No ano passado, ele fechou a prova com o tempo de 12s81, e ficou apenas quatro centésimos de segundo abaixo do recorde.

É quase impossível para um atleta, de qualquer idade, deter recordes nos 100, 200 e 400 metros simultaneamente. Houve quem detivesse dois dos três. Bolt, por exemplo, tem os recordes dos 100 e 200 metros. Michael Johnson foi recordista dos 200 e dos 400 metros simultaneamente. Mas pessoas capazes de vencer os 100 metros em geral esgotam seu gás antes do final dos 400 metros, e os corredores que se saem bem nos 400 metros não têm a velocidade bruta necessária a vencer os 100 metros.

“Ele vai bater o recorde”, disse Collins, colega de equipe de Allie no Houston Elite, um clube de atletismo. “Só precisa trabalhar um pouco mais em sua largada, naqueles primeiros 10 metros.”

Collins, três anos mais jovem que Allie, o descreve como “um atleta único, mais ou menos como Usain Bolt”.

Em 2013, Allie viajou a Mônaco para receber um prêmio da Associação Internacional de Federações de Atletismo (Aifa) como melhor atleta master do ano. Bolt também estava lá, recebendo o prêmio de atleta sênior do ano.

“Foi uma honra estar em companhia dele”, disse Allie sobre Bolt.

Allie venceu campeonatos municipais quando estava no segundo grau em Pittsburgh. Estudou na Universidade de Hampton, Virgínia, onde seus tempos eram só um pouquinho inferiores aos dos atletas campeões nacionais e internacionais. Quando tinha seus 20 e 30 anos, ele participava de algumas competições, enquanto trabalhava como professor de artes industriais e treinava equipes esportivas escolares.

E aí chegaram os 40 anos e as competições de masters. Ele descobriu que havia perdido menos velocidade do que seus contemporâneos. Agora, a matilha corria ao seu ritmo, ou até abaixo dele.

Michael Joyner, da Mayo Clinic, uma importante instituição de pesquisa sobre exercício e fisiologia, disse que o desempenho de Allie o coloca no limite extremo dos efeitos do envelhecimento —um declínio da ordem de apenas 6% por década. Mas dadas todas as lesões a que corredores estão sujeitos, a perda lentíssima de desempenho de Allie parece ainda mais notável.

“Se você corre a milha em sete ou oito minutos, não estoura as pernas como outros atletas fazem”, disse Joyner. “Ele claramente manteve a forma.”

Allie come de modo saudável e corre nas provas de revezamento Penn Relays todos os anos, desde que completou 40 anos. Se fizer duas sessões duras de treinamento em seguida, tira um dia de folga.

“Preciso de repouso”, diz. Ele treina com pesos na Associação Cristã de Moços, algumas tardes por semana, para tentar evitar o declínio inevitável das fibras musculares de ação rápida.

Os exercícios de Allie não são longos ou complicados. Ele corre uma milha lentamente para se aquecer.

Depois faz uma série de tiros de 50 metros. Elevando bem os joelhos durante um deles, e batendo com o calcanhar no traseiro a cada passo, em outra série. Depois disso, senta no gramado à beira da pista de corrida e coloca as sapatilhas —Nike, pretas, topo de linha. É a única coisa em que gasta muito dinheiro.

“Gosto de um calçado que me faça sentir veloz”, ele disse.

As sapatilhas são muito leves, e ele as usa para séries rápidas em distâncias pouco maiores que as provas em que concorre. Se vai correr nos 400 metros, ele faz estirões de 500 e 600 metros. Para os 200 metros, a distância é de 250 a 300 metro. Para os 100, ele decidiu em uma manhã recente que treinaria com tiros de 150 metros.

Correr em companhia dele pode ser humilhante. Do momento da largada, ele dispara, como se estivesse pisando no ar. Pessoas de mais de 70 anos não deveriam ser assim velozes.

Collins, seu colega de equipe e ocasional rival, diz que pouca gente consegue manter a velocidade durante uma prova como Allie. Nos 400 metros, o tempo dele nos 100 metros finais é quase o mesmo do que para os primeiros 100 metros. Isso explica seu apelido, “One Speed” [velocidade única], diz Collins. “Mesmo vencendo com vantagem de 30 ou 40 metros, ele não desacelera.”

A mulher de Allie, Jackie —eles estão juntos desde a escola— filma suas provas e as posta na internet. “Eu acho que curto mais as corridas do que ele”, ela diz.

Isso é bom, porque o esporte não sai barato. Os atletas master, mesmo os melhores do mundo, bancam as próprias despesas, ainda que a Federação de Atletismo dos Estados Unidos recentemente tenha começado a pagar aos melhores corredores cachês de US$ 400 (aproximadamente R$1500) por prova disputada nos campeonatos mundiais, e prêmios de US$ 400 (aproximadamente R$1500) por medalha de ouro. A premiação máxima em cada categoria de idade é de US$ 1 mil (aproximadamente R$ 3700). Allie recolheu o prêmio máximo no passado, é claro —US$ 2 mil (aproximadamente R$ 7500). E os atletas agora recebem uniformes e outros produtos esportivos gratuitos.

Allie treina crianças no Nadia, um clube de Pittsburgh. Disse que trabalhar com crianças a partir dos seis anos o ajuda a manter a juventude.

As crianças o chamam de “Coach Buddy”. Viajam a Filadélfia para assisti-lo competir no Penn Relax. Nos dias em que não treina de manhã, ele calça as sapatilhas e corre com as crianças de tarde. Como tudo mundo mais, elas não conseguem acreditar em sua velocidade.

“Você precisa forçar o ritmo para acompanhá-lo”, disse Kamili Wiley, 13. “É uma loucura.”

The New York Times, tradução de Paulo Migliacci



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