No purgatório deplorável que foi Westminster na semana passada, uma pessoa apenas aparentava estar se divertindo.

Ocupando a cadeira revestida de seda do presidente da Câmara dos Comuns, John Bercow contemplou a discórdia que tomara conta do Parlamento britânico e berrou “ordem! ordem!” em sua voz impossível de ser ignorada, que lembra uma sirene de ataque aéreo com o nariz entupido por uma gripe.

Ele distribuiu insultos pomposos e antiquados, repreendendo alegremente um parlamentar por “resmungar em posição sedentária sem eloquência e sem finalidade óbvia”.

O mundo externo raramente presta muita atenção ao presidente da Câmara dos Comuns, uma figura não partidária e normalmente de baixo perfil que preside sobre os debates no Parlamento britânico. Mas a paralisia nacional de último minuto em torno da saída da União Europeia, ou “brexit”, converteu Bercow em uma espécie de celebridade.

Faltando menos de dez semanas para a data em que o país deve deixar o bloco europeu, Bercow rompeu com os precedentes, arrancando da primeira-ministra Theresa May parte do controle sobre o processo decisório em relação ao “brexit” e permitindo que o Parlamento impeça o país de sair da UE sem um acordo.

Isso lhe valeu a admiração dos europeus. Uma rádio francesa o nomeou “europeu da semana”. Clipes de seu grito de “ordem, ordem!”, sua marca registrada, viralizaram nas redes sociais.

Mas isso tudo enfureceu a equipe de May, que na sexta-feira ameaçou Bercow com o castigo mais arrogante possível: bloquear seu acesso à Câmara dos Lordes, uma honra que é concedida a todos os presidentes da Câmara dos Comuns há mais de 200 anos.

Este é um momento extraordinário para Bercow, que tem 56 anos e é filho de um motorista de táxi da zona norte de Londres. Outsider que às vezes é alvo de chacota por sua baixa estatura (1,67 metro), ele abriu caminho entre a elite britânica graças puramente à sua garra e determinação, sendo visto por alguns como figura agressiva que não se deixa calar e por outros como defensor acirrado dos direitos do Parlamento.

Essas qualidades pessoais estão exercendo um papel neste momento crucial em que o Reino Unido se aproxima rapidamente da saída da UE, marcada para 29 de março, com o governo atolado em um impasse.

“Bercow faz o que ele próprio acha certo e não segue ordens de ninguém”, disse Bobby Friedman, autor de uma biografia de Bercow.

Ele lembrou a decisão tomada pelo presidente da Câmara dos Comuns em 9 de janeiro de autorizar o Parlamento a emendar uma moção executiva do governo sobre o “brexit”. As moções executivas dão ao Executivo o poder de determinar o que acontece no Parlamento e quando. Até agora, o Parlamento considerava que elas não podiam ser modificadas.

“Do ponto de vista de um analista político, foi espantoso”, disse Friedman sobre a decisão de Bercow. “Ele disse: ‘Vou fazer o que eu quiser’. Para qualquer outro presidente do Câmara, teria sido incrivelmente surpreendente. No caso dele, nem tanto.”

Bercow irrita seus colegas conservadores constantemente. Alguns ainda estão furiosos com sua decisão de não usar a vestimenta tradicional dos presidentes da Câmara dos Comuns, incluindo peruca e bombachas, que, para ele, criam “uma barreira entre o Parlamento e o público”.

Mas nada chegou perto da fúria gerada por sua decisão de autorizar os legisladores a emendarem uma moção executiva, decisão que, na prática, impôs limites aos poderes do governo.

Diferentemente de seu equivalente americano, o presidente da Câmara dos Comuns britânica é obrigado a abandonar sua filiação partidária e observar neutralidade em questões políticas.

 

Crispin Blunt, parlamentar do Partido Conservador, protestou dizendo que Bercow não pode mais se dizer um árbitro neutro sobre a questão do “brexit” e deveria renunciar a seu cargo.

Outro conservador, David Morris, disse que Bercow colou um adesivo em seu carro descrevendo o “brexit” com um epíteto anatômico.

“Bercow nega que seu carro ostente um adesivo, dizendo que o veículo pertence à sua esposa”, escreveu Morris. “Mas é como se ele andasse com o adesivo colado firmemente a seu peito estufado nesta ocasião.”

Bercow disse que em 2016 votou pela permanência do Reino Unido na União Europeia, mas insistiu que agora não está tomando partido. Em vez disso, alegou, o que fez foi defender o direito do Parlamento de resistir a um Executivo que estava tentando se impor.

“Compreendo a importância dos precedentes, mas não há uma obrigação absoluta de seguir os precedentes”, ele disse. “Se fôssemos guiados unicamente pelos precedentes, nada jamais mudaria em nossos procedimentos. As coisas mudam, sim.”

Bercow não quis dar declarações para este artigo.

O comentarista político Ian Dunt, que rejeita o “brexit”, disse que o governo colocou o Parlamento de escanteio durante o processo de discussões. Para ele, o referendo conferiu ao Executivo uma forma mais direta de soberania.

Ele comparou esse momento a 1642, quando o rei Charles entrou intempestivamente na Câmara dos Comuns e exigiu que cinco parlamentares fossem presos por traição à pátria. O presidente da Câmara na época, William Lenthall, recusou-se a obedecer a ordem e, em discurso que ficaria famoso, disse ao rei que estava agindo unicamente em nome da Câmara dos Comuns.

“Estamos assistindo agora a um desses grandes momentos de mudança constitucional”, disse Dunt. “Se pensarmos na escala do que isso significa, começamos a pensar na Guerra Civil Inglesa.”

John Bercow é neto de Jack Bercowitch, que emigrou da Romênia para o Reino Unido aos 16 anos e foi viver na zona leste de Londres. Seu pai, Charlie, tinha uma revendedora de carros usados e, quando a empresa foi obrigada a fechar, tornou-se motorista de táxi.

Amigos e vizinhos descrevem Bercow na adolescência como um garoto cheio de opiniões próprias que às vezes irritava seus professores por contradizê-los em sala de aula, escreveu Friedman em sua biografia, “Bercow, Mr. Speaker”.

“Aos 10 anos de idade ele já falava como político”, disse Ashley Fuller, que joga tênis com Bercow. “Ele vinha na minha casa, via meu pai e dizia ‘sr. Fuller, o senhor viu o que estão dizendo na página 3 do ‘Times’? É um absurdo, vou lhe mostrar.’”

Na juventude, Bercow se alinhou com a ala de extrema direita do Partido Conservador, tendo em dado momento defendido a “repatriação assistida” de imigrantes –uma posição estranha para ser tomada pelo neto de imigrantes judeus.

Um colega ativista da época se recorda de Bercow decorando e declamando discursos inteiros de Enoch Powell, parlamentar acusado por muitos de incitar o racismo. Mais tarde, Bercow se distanciou desse movimento e descreveu suas próprias posições na época como “estúpidas”.

Bercow subiu na hierarquia política à custa de socos e pontapés. Ele estava tão determinado a fazer parte do Parlamento que contratou um helicóptero para conseguir assistir a reuniões de seleção de candidatos em dois distritos eleitorais na mesma noite.

Em 2009 ele se tornou presidente da Câmara dos Comuns, o primeiro parlamentar judeu na história a exercer esse cargo.

Como de praxe, ele abriu mão de sua filiação partidária quando assumiu o cargo. Suas posições políticas haviam migrado para a esquerda; ele estava casado com uma ativista trabalhista, Sally, e muitos conservadores falavam dele com repúdio declarado.

David Cameron, o então primeiro-ministro, certa vez ironizou Bercow diante de jornalistas reunidos, dizendo que no casamento real que aconteceria em breve o presidente da Câmara ia intervir, gritando “ordem! Quero ouvir o que o príncipe está dizendo”.

Cameron zombou da altura de Bercow, comparando-o a um dos sete anões de Branca de Neve e relatando uma ocasião em que o presidente da Câmara declarou “não estou feliz!” e um ministro júnior da Saúde respondeu: “Bem, qual deles [dos sete anões] você é?”

Enquanto isso, Bercow escarnecia de Cameron por sua origem de elite, dizendo que “Eton [o colégio de elite em que Cameron estudou], caçar, atirar e o fato de almoçar no White’s”, um clube masculino de elite de St. James, em Londres, não o qualificavam para liderar o país.

Consta que Bercow é tempestuoso. Ele já foi acusado de tratar seus subalternos com grosseria, mas nega a acusação. Um inquérito independente conduzido no ano passado concluiu com a sugestão de que ele deveria renunciar. Ele já assinalou que vai deixar seu cargo este ano.

Os fatos da semana passada lhe valeram elogios de fontes incomuns. O “Times” o descreveu como “um indivíduo que não chega a ser simpático” mas admirou suas ações, dizendo que o modo como o governo vem tratando o Parlamento “parece inspirado no século 17, frequentemente evocando a vontade do povo, mais ou menos como os primeiros monarcas da casa dos Stuart costumavam evocar o direito divino dos reis”.

Quando a Bercow, ele disse à The House Magazine em 2012 que não presta muita atenção a seus críticos.

“Eles escrevem, rabiscam, e o mundo continua”, disse. “Não tenho planos de morrer amanhã, mas se eu morrer amanhã morrerei um homem muito feliz.”



DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here