Um dos patrocinadores oficiais da Federação de Futebol dos Estados Unidos se alinhou com a seleção de futebol feminino que venceu a recente Copa do Mundo da França em sua luta contra a federação por remuneração igual, e instou sua parceira a “estar do lado certo da História”.

O patrocinador, Procter & Gamble, anunciou seu apoio à igualdade na remuneração com um anúncio de página inteira na edição de domingo do jornal The New York Times. A companhia foi a primeira entre os mais de 12 patrocinadores e parceiros da Federação de Futebol dos Estados Unidos a se alinhar de forma tão clara com a seleção feminina na batalha pela igualdade de pagamento, e seu apoio pode aumentar a pressão sobre os dirigentes da federação antes das sessões de mediação que tentarão resolver o problema do processo por discriminação de gênero que as jogadoras da seleção feminina abriram na justiça federal dos Estados Unidos.

A Procter & Gamble, que patrocina a Federação de Futebol dos Estados Unidos por meio de sua marca de desodorantes Secret, também informou que doaria US$ 529 mil (cerca de R$ 2 bilhões) à associação das jogadoras da seleção feminina que representa a equipe em suas relações com a federação. A quantia é simbólica, segundo a empresa: US$ 23 mil (aproximadamente R$ 86 mil) para cada uma das 23 jogadoras que defenderam a seleção na Copa do Mundo.

“A desigualdade envolve mais que os pagamentos e as jogadoras”, afirmou a Procter & Gamble no anúncio: “Também se relaciona a valores”.

Todos os patrocinadores da Federação de Futebol dos Estados Unidos expressaram apoio à seleção desde sua vitória por 2 a 0 contra a Holanda na final da Copa do Mundo. A Nike, por exemplo, divulgou um comercial de 60 segundos minutos depois que o título foi conquistado, em 7 de julho, com uma mensagem que enfatizava a igualdade das mulheres e o apoio ao empoderamento feminino em termos mais amplos, mas sem apelar explicitamente por igualdade na remuneração da seleção feminina, como fez o anúncio do Secret.

Megan Rapinoe, uma das capitãs da seleção, enfatizou a força dessa forma de apoio empresarial em uma entrevista ao programa “Meet the Press”, e instou outras empresas a seguir esse exemplo.

“São algumas das empresas mais poderosas, não só no esporte como no mundo, e elas têm muito peso a exercer”, disse a jogadora. “Creio que elas precisem só se acostumar com a ideia de exercer esse peso”.

A seleção feminina de futebol e a federação estão envolvidas em uma disputa pública sobre igualdade de pagamento e apoio há alguns anos. A seleção feminina apresentou em 2016 uma queixa por discriminação salarial contra a Comissão de Igualdade no Emprego do governo americano, mencionando números que, segundo seus advogados, demonstravam que a expectativa de remuneração das jogadoras da seleção feminina ficava dezenas de milhares de dólares abaixo da remuneração masculina pelo mesmo trabalho.

Um ano mais tarde, depois de meses de negociações, a seleção e a federação chegaram a um acordo sobre um novo contrato coletivo de trabalho que incluía remuneração e condições de trabalho melhores, mas em março deste ano as duas partes já estavam se desentendendo de novo.

 

Frustradas pela falta de progresso quanto à sua queixa à Comissão de Igualdade no Emprego, as jogadoras decidiram retirá-la e, em lugar dela, 28 jogadoras da seleção feminina abriram um processo contra a federação na justiça federal, acusando a organização de anos de “discriminação de gênero institucionalizada”. A discriminação, afirma a equipe, afeta não só seus salários mas os seus locais de jogo e a frequência das partidas, o tratamento médico que recebem e os hotéis em que a equipe se hospeda.

Embora a Procter & Gamble seja o primeiro patrocinador da federação a entrar na briga ao lado das jogadoras de forma tão direta, ela não é a primeira empresa a assumir compromissos financeiros diretamente com as atletas. Dias antes da Copa do Mundo, a Visa anunciou um contrato de patrocínio de cinco anos de duração que segundo a empresa requer que pelo menos metade do valor envolvido seja destinado à seleção feminina e outros programas de futebol feminino.

Em abril, a Luna Bar, fabricante de barras de energia, prometeu a cada jogadora convocada para a Copa do Mundo uma bonificação de US$ 31.250 (cerca de R$ 117 mil). O valor, informou a Luna Bar, equivalia à diferença entre as bonificações pagas aos jogadores da seleção masculina e às jogadoras da seleção feminina por classificação para uma Copa do Mundo.

Mas o caso das bonificações serve para expor as complicações e nuanças do debate sobre igualdade de pagamento. Em uma das diferenças mais evidentes, os atletas da seleção masculina e as da seleção feminina operam sob contratos coletivos diferentes com a federação. Os homens, que contam com salários muito mais altos em seus clubes, priorizam pagamentos mais altos por partida e por vitória, da parte da federação, enquanto as mulheres, cuja receita continua a vir principalmente da federação, há muito aceitam bonificações menores por convocação e resultados em troca da garantia de salários.

A maior diferença na remuneração pelo sucesso na Copa do Mundo continua a estar nas bonificações pagas às seleções participantes pela Fifa, a organização que comanda o futebol mundial. Essas bonificações podem ser até 10 vezes mais altas para uma seleção masculina do que para uma feminina.

O debate sobre tratamento igual às mulheres no futebol não é novidade, Em 2012, ele chegou a envolver os lugares dos atletas das duas seleções de futebol japonesas no avião quando elas estavam viajando para a Olimpíada de Londres: a equipe feminina, vencedora da Copa do Mundo um ano antes, viajou em classe econômica, enquanto os homens tinham lugares na classe executiva. Mas o ímpeto do debate sobre a igualdade de pagamento, propelido por vozes fortes na seleção feminina americana como Rapinoe, Alex Morgan e outras, já vinha crescendo mesmo antes da vitória americana na Copa do Mundo da França.

Nos dias posteriores ao segundo título consecutivo de Copa do Mundo para a seleção feminina americana, torcedores, empresas e políticos correram a expressar apoio à causa das jogadoras. Depois da vitória dos Estados Unidos sobre a Holanda, a torcida cantou “pagamento igual!” no estádio, e nos dias posteriores o grito de guerra voltou a ser usada na parada da vitória da seleção em Nova York.

Em entrevistas, até mesmo Rapinoe reconheceu que a questão da remuneração era apenas uma das formas de igualdade em uma “discussão complexa”. Nos dias que antecedem as negociações de mediação entre as atletas e a federação quanto ao processo por discriminação de gênero, comentários como o dela, reduzindo a ênfase  na igualdade de pagamento como única preocupação da seleção, podem representar um sinal à federação de que as jogadoras não querem vencer a ferro e fogo. Mas ter grandes empresas ao lado da associação das atletas só pode ajudar.

“É muito importante, financeira e publicamente, que marcas, especialmente uma marca que também é patrocinadora da Federação de Futebol dos Estados Unidos, apoie nossas jogadoras”, disse Becca Roux, diretora executiva da associação de jogadoras da seleção, na manhã do domingo. “Igualdade e igualdade de pagamento são questões sistêmicas que requerem soluções sistêmicas. As grandes empresas são forças poderosas e influentes no sistema, capazes de promover grandes mudanças para melhor”.



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