Rogério Caboclo, 45, cresceu observando o pai, dirigente de futebol. Aprendeu como os cartolas se comportam, o que dizem, quando dizem e como dizem as coisas. Percebeu que é preciso ter cuidado com a imprensa. 

Rogério será o novo presidente da CBF em eleição marcada para abril. Vai ser candidato único, abençoado por Marco Polo Del Nero, suspenso pela Fifa por suspeita de corrupção. O pai é Carlos Caboclo, 80, dirigente histórico do São Paulo, clube também do coração de Rogério.

“Conversamos duas ou três vezes por semana. É bom você ver o filho crescer. Somos parecidos em algumas coisas. Ele é alguém que escuta as pessoas e resolve problemas. Se não resolve na hora, estuda e depois aparece com a solução”, elogia o pai.

Em 50 anos no São Paulo, Carlos Caboclo foi diretor de futebol amador, futebol profissional, comunicação, marketing e relações institucionais. Afirma ainda ter sala no Morumbi, mas aparece lá uma vez a cada 15 dias. 

Acho que é isso. Sempre tive memória prodigiosa. Hoje não tenho mais”, afirma.

Não é verdade. Se tem problemas em lembrar datas, é capaz de contar histórias por horas, interrompendo uma para relatar outra antes de voltar ao causo original, retomando de onde parou.

Começa falando de quando tinha cinco anos de idade na Vila Maria (zona norte de São Paulo) e ficou fascinado com o broche do escudo do São Paulo na lapela do terno de um tio, e vai até as palestras dadas na China para popularizar o futebol.

Rogério, o caçula de três filhos, nunca foi cartola de clube algum. Trabalhou na Federação Paulista de Futebol, no comitê organizador da Copa-2014 e, depois, na CBF.

O pai se manteve fiel ao primeiro amor. Clube pelo qual confessa ter desviado dinheiro da própria loja, sem a mulher saber, para ajudar a pagar salários dos garotos das categorias de base. 

O mesmo São Paulo que o fazia tirar o terno na calçada da avenida Marquês de São Vicente (zona oeste da capital), durante as obras do Centro de Treinamento da Barra Funda para que caminhões despejassem areia e o aterramento do local fosse feito. 

“Eu fiz de tudo lá”, completa, antes de contar como instalou lâmpadas no estádio quando o Morumbi já estava pronto ou convenceu Telê Santana a ser o novo técnico do São Paulo, em 1990.

Amizade

Foi a contratação que mudou a história do clube. Com o treinador no comando, foram dois títulos mundiais, duas Libertadores, um brasileiro e dois paulistas. 

“Havia muita gente no São Paulo que não queria o Telê. Tive de brigar para que ele fosse contratado.”

Caboclo se diverte com as histórias de ranhetice e avareza de Telê Santana, incapaz de pagar qualquer conta no restaurante ou no bar. Os dois foram amigos até a morte do treinador, em 2006.

Em recuperação de cirurgia para retirada de um tumor no pé esquerdo, o dirigente (ele não se considera aposentado) abre pasta para mostrar fotos, artigos escritos para a Folha e imagens de malsucedida candidatura ao Senado pelo PDT (Partido Democrático Trabalhista) em 1994. 

Orgulha-se de ter sido chamado de “a cara do São Paulo”. A mesma exposição que o fez ser acusado de querer aparecer demais na mídia.

Ele não acredita que o filho Rogério, avesso aos holofotes, terá o mesmo problema quando assumir a CBF.

Carlos Caboclo, prestes a ser o pai do homem mais poderoso do futebol brasileiro, não dá bola para isso. Preocupa-se de verdade com a situação do São Paulo. 

“Era só contratar um goleiro e um artilheiro que estava bom”, se queixa.

Dono de empresas de distribuição de doces, está afastado dos negócios, mas não das histórias do futebol. 

Antes de a reportagem sair do confortável apartamento em Moema (zona sul da capital), onde Caboclo mora, ele pede licença e volta com a mão cheia de chicletes. 

“Eu distribuo essas coisas. Dou caixas para o Muricy [Ramalho]. Também entregava para o Telê e ele parou de ficar com palito de dentes na boca. Ele era tão pão-duro que era doença”, se diverte. 



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