Tenho até um pouco de medo de dizer isso, porque da última vez que acreditei nessa mudança, ela durou apenas 10 meses. Mas novamente me vejo tomada pelo otimismo e me permito acreditar que vai ser diferente agora.

Pia Sundhage é a segunda mulher a comandar uma seleção brasileira de futebol e começou, nesta quinta-feira (29), uma jornada que eu espero que seja longa, vitoriosa e, acima de tudo, transformadora para o futebol feminino no Brasil.

O roteiro, por enquanto, está lindo. Uma treinadora bicampeã olímpica, que tem um repertório tático muito bom e que tem história no futebol feminino. Comissões técnicas das seleções de base que vieram da modalidade, com a presença de ex-jogadoras experientes. Treinos nesta semana em São Paulo em que as três comissões estiveram juntas, trocando informações e trabalhando em sinergia.

Os trabalhos tiveram a participação ativa de Pia em campo, mostrando para as jogadoras suas principais ideias de futebol, atuando bem perto delas, e não à distância como costumava ser com Vadão, que a antecedeu.

Tudo isso dá mostras de que estamos vivendo um novo momento no futebol feminino da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), em que finalmente há pessoas ali trabalhando pelo real desenvolvimento da modalidade e por mudanças profundas que tragam muito mais do que eventuais títulos ou medalhas ao Brasil —que façam a bola ser um sonho possível e realizável para as meninas e mulheres que ocupam os gramados deste país.

Na prática, em campo, não se faz mágica da noite para o dia. O que se viu na seleção durante a Copa do Mundo era um time pouco organizado, com uma defesa frágil e que dependia sempre de lampejos individuais para brilhar lá na frente.

Eram poucas as construções coletivas de jogadas. O ataque era só pelo lado, na velocidade, contando com habilidade de Debinha ou Marta para quebrar as linhas no drible e construir alguma coisa dali. O repertório era limitado para um time que tinha tantos talentos em campo. E as falhas da defesa cederam gols demais aos adversários.

O estilo de Pia é outro. Passa por uma organização defensiva muito maior, que obriga todas as jogadoras a cumprirem funções quando o Brasil não está com a bola, fazendo de tudo para recuperá-la.

Passa também por um ataque veloz, mais bem construído, que pode acontecer pelos lados, mas também pelo meio, que não dependa apenas do brilho individual das craques, mas potencialize o talento coletivo das brasileiras.

Seria a melhor tática dentro de campo para que sobressaia a melhor técnica com a bola nos pés. Isso, aliás, é algo frequentemente repetido pela treinadora sueca.

Na técnica, o Brasil é sem dúvidas o melhor do mundo, mas falta à seleção organização defensiva (que ela via na seleção sueca) e repertório tático (que ela traz do trabalho que fez nos Estados Unidos).

As expectativas são do tamanho do currículo da treinadora. O interesse da mídia pela cobertura desse torneio mostra isso. São quase 250 jornalistas credenciados.

É empolgante poder acompanhar de perto um trabalho tão diferente e tão promissor na seleção feminina.

Se entre os homens, já estamos acostumados a ver os melhores técnicos (salvo algumas exceções) tendo a chance de comandar os melhores jogadores na seleção brasileira, entre as mulheres isso é novidade.

Que seja eterno enquanto dure (e que dure bastante desta vez).



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