São quase 9h quando o avião que serve Evo Morales, 59, começa a aterrissar em Oruro, no centro-oeste da Bolívia. 

“Aqui está, senhor presidente”, diz a assistente do mandatário, oferecendo-lhe um pente. Evo ajeita o cabelo cuidadosamente antes de desembarcar.

Ainda era cedo, mas o dia do presidente havia começado horas antes. Às 5h, um segurança avisou os oficiais, vestidos com uniformes tradicionais do Exército, que o presidente já havia deixado sua residência.

Pouco depois, Evo aparece no pátio interno da Casa Grande del Pueblo, nova sede do Executivo —uma torre de mais de 120 metros e paredes de vidro—, localizada atrás do Palácio Quemado, a antiga sede do governo.

No 13º andar do edifício, Evo conduz uma reunião com seus ministros. Dali, sobe até o heliponto e embarca para chegar à pista da base aérea.

A Folha viajou no jato do líder boliviano a convite do presidente. Evo o utiliza para visitar dois ou mais Departamentos (Estados) do país por dia.

Dentro da aeronave, viajavam também um ministro, o diretor das filmagens de sua campanha eleitoral e a assistente. 

Neste dia, Evo visitou a cidade de Oruro, onde se reuniu com o governador local e participou de dois atos: a entrega de kits de ciência a alunos de vários colégios da região e um encontro com militantes, sindicalistas e simpatizantes.

Em todos os eventos, é preciso abrir caminho entre várias pessoas que gritam e tentam tirar fotos do presidente. 

Ao chegar à escola, Evo é cercado com pedidos de selfie dos estudantes. Quando, por fim, estão todos no palco, o ginásio reverbera o hino nacional, cantado por todos com a mão direita sobre o coração e o punho esquerdo levantado.

O presidente percorre o colégio visitando laboratórios recém-inaugurados. Na saída, é parado por uma professora que está com as bochechas vermelhas de emoção.

No segundo evento do dia, num ginásio poliesportivo, Evo faz um discurso mais focado na campanha eleitoral. No poder desde 2006, disputa a presidência por meio de um controverso processo que lhe deu a chance de concorrer ao cargo pela quarta vez consecutiva.

Se discorreu sobre a importância da ciência aos estudantes, criticou a oposição aos trabalhadores. Mostrou cópias de jornais antigos com notícias sobre casos de corrupção e os números da economia em gestões anteriores à dele.

Em 2006, quando assumiu, Evo recebeu o país com PIB de US$ 9 bilhões. Hoje, esse índice é de US$ 37 bilhões. 

Há 13 anos, os pobres representavam 60% da população. Hoje, são 35%. Pelo quinto ano seguido, a Bolívia é o país sul-americano que mais cresce, com alta de 4,2% em 2018 segundo o Banco Mundial —mais que Brasil e Argentina. 

“Não me abandonem agora, ainda temos muito o que fazer.” A plateia entoa: “Evoamigo, o povo está contigo”. 

No almoço, Evo senta-se na cabeceira da mesa. Uma TV mostra que manifestações marcadas para aquele dia fracassaram —a maioria dos canais é alinhada ao governo. Evo lamenta com a cabeça. “Tinha três pessoas em cada um”. 

Os protestos têm ocorrido a cada dia 21 desde 21 de fevereiro de 2016. Naquela data, o governo convocou um referendo para decidir a retirada de um artigo na Constituição que impede mais de uma reeleição.

Essa não é a primeira vez que ele manobra para disputar eleições consecutivas.

Em 2009, uma nova Constituição foi aprovada, e Evo passou a defender que, apesar de já ter governado o país durante dois mandatos, poderia disputar a Presidência pela terceira vez porque o primeiro termo ocorreu antes da nova Carta.

O tribunal constitucional aceitou o argumento, e em 2014 foi reeleito com 63,3% dos votos. Dois anos mais tarde, no entanto, veio a derrota. O referendo convocado em 2016 revelou-se um fracasso. 

Evo não engoliu o resultado e usou outra artimanha para concorrer. “Perdi o referendo. Mas depois de ver muita gente chorando, e os membros do meu gabinete dizendo que a Bolívia ia regredir se eu saísse, resolvi buscar uma nova figura política dentro da Constituição que me permitisse”, diz Evo à Folha. “E encontramos.”

Para o presidente, a cláusula da Constituição que garante a todo boliviano o direito de se candidatar à Presidência respaldaria sua vontade de disputar o cargo pela quarta vez.

Segundo a visão de Evo sobre as leis, caso não pudesse participar da corrida eleitoral, seus direitos estariam sendo desrespeitados. O artigo constitucional evocado pelo presidente existe para garantir que qualquer cidadão, incluindo presos políticos, possam se candidatar, e não para perpetuar líderes nos cargos.

O argumento contrariou parte da população, que desde então está convencida de que Evo atuou de modo antidemocrático para disputar o pleito de 20 de outubro. Persuadiu, contudo, os juízes. 

Agora, o presidente lidera as pesquisas, com 34% das intenções de voto, contra 28% do ex-mandatário Carlos Mesa. 

Após a transmissão do boletim político na televisão, veio o noticiário esportivo. A Folha lembra de um jogo festivo em que Evo atuou ao lado de veteranos da seleção boliviana. 

O presidente passa a esbanjar modéstia. Afirma ser um bom cobrador de pênaltis e diz que hoje está “pesado, gordo”, mas que, quando está bem, faz “3.000 abdominais em três séries de mil”. 

Único sobrevivente, no plano político, da chamada “onda vermelha” da América do Sul —com a exceção do venezuelano Nicolás Maduro, cujo regime se tornou uma ditadura—, Evo diz não gostar do termo, mas crê ter se transformado numa “referência”.

“Todos os presidentes da região me têm como um fator de unidade. Porque me relaciono com respeito com todos.”

Incluindo Jair Bolsonaro. Evo realizou a proeza de participar das posses de Maduro e do presidente brasileiro, que se mostrou contente com a decisão do boliviano de não ir ao encontro do Foro de São Paulo em Caracas, em julho.

Na última cúpula do Mercosul, na Argentina, Bolsonaro tinha dito que Evo estava “mudando”, e o símbolo dessa mudança seria a ajuda ao Brasil no processo de extradição do italiano Cesare Battisti.

Enquanto ouve a Folha perguntar sobre a aproximação com o brasileiro, porém, ele balança a cabeça negativamente.

“Primeiro, o caso de Battisti era um caso de legalidade internacional, não foi uma decisão política. Sempre vamos agir dentro da lei”, afirmou.

“E não é porque temos diferenças ideológicas que não vamos nos relacionar politicamente. Relacionamo-nos bem com todos os presidentes, desde que tenham sido eleitos de forma democrática.”

Durante um dos discursos da manhã, Evo criticou a política de armas do governo brasileiro. A bordo do jato, voltou ao tema. “Tenho lido sobre isso e acho gravíssimo. Não compartilho a ideia de permitir mais armas para que brancos matem a população pobre do país”, diz.

“A Bolívia nunca fará isso. Há uma diferença ideológica importante entre nós. Mas, ainda que exista essa diferença, como presidente eleito democraticamente, eu o respeito.”

O dia termina com outros três atos em Trinidad, capital do departamento de Beni. Novos discursos de campanha e um jantar para autoridades locais em uma churrascaria. 

Depois de comer, anuncia um novo trecho da viagem, desta vez para Cochabamba. Sua assistente diz que “o presidente é assim”. “Faz o que quer.” 

Ao chegar a Cochabamba, Evo desce do avião e diz: “Vocês ficam aqui, ok?”. Eram 22h e ninguém, incluindo a assistente, tinha reservado hospedagem ou levado roupas extras.

Depois de um dia que havia começado às 5h, Evo se dava o direito de manter segredo do que faria à noite. Enquanto voltava para dentro da base aérea, deu adeus a todos e partiu. O presidente é assim.



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