​O começo do ano normalmente pareceria ser um momento esquisito para que alguém se preocupe com despedidas e aposentadorias. Mas quando Andy Murray anunciou que vai se despedir do tênis em 2019, em uma entrevista coletiva emotiva antes da abertura da competição, o Aberto da Austrália sofreu uma mudança perceptível de clima: do torneio normalmente conhecido como Slam feliz para um evento dominado por conversas sobre como administrar a dor e sobre as medidas às vezes extraordinárias a que os atletas recorrem para prolongar suas carreiras.

Hospital Slam, que tal?

Murray, 31, vencedor de três torneios de Grand Slam em sua carreira, ficou fora do torneio do ano passado em razão de uma cirurgia na bacia que não aliviou seu sofrimento. Na segunda-feira (14), ele lutou valentemente contra a dor e seu oponente, Robert Batista Agut, por mais de quatro horas, antes de perder em cinco sets.

Rafael Nadal, 32, que conseguiu passar para a segunda rodada com uma vitória sobre Matthew Ebden, descreveu como os problemas em seus joelhos e diversas outras lesões o forçaram a ajustar seu calendário de treinamento com base no “sentimento de seu corpo”, e a adotar um estilo de saque mais rápido e agressivo para tentar encurtar a duração dos pontos.

Maria Sharapova, campeã de cinco torneios de Grand Slam, venceu Harriet Dart com facilidade e depois falou sobre como dores nos ombros a incomodam há 10 anos e a forçaram a aceitar que “você não é imortal, e não há como jogar para sempre”.

E há o caso de Caroline Wozniacki, que ainda não chegou aos 30 anos mas já está administrando uma crise de saúde. Wozniacki, 28, voltou à Rod Laver Arena para uma partida de primeira rodada contra Alison Van Uytvanck, e não parecia ter mudado em nada ante sua mais recente passagem por aquela quadra, um ano atrás, quando superou Simona Halep e conquistou seu primeiro título de Grand Slam.

Wozniacki teve de rebater drop shots e saiu por cima da maioria dos rallies, em uma vitória por 6-3 e 6-4 que de alguma forma ocultou o esforço extra de que ela precisa agora para manter sua vantagem competitiva. Em 2018, a tenista descobriu que tem artrite reumática, um problema ligado a disfunções do sistema imunológico. Wozniacki explicou que o sistema imunológico de seu corpo ataca tecidos saudáveis nas juntas de suas mãos, joelhos e pés, e em torno delas, causando erupções cutâneas, inflamação e fadiga.

O diagnóstico forçou Wozniacki a alterar sua rotina e incluir mais massagens, menos tênis, menos açúcar, mais alongamento e menos jogging.

“Você ouve seu corpo e tenta coisas diferentes”, ela disse, acrescentando que “há dias em que acordo e não me sinto bem, e quando isso acontece ainda assim me levanto e sigo meu programa, mas com mais cuidado. E sei que não preciso treinar em máxima força naquele dia porque isso vai fazer com que eu me sinta mal no dia seguinte. Amadureci muito. Eu não costumava pensar assim”.

É notável ouvir tantos jogadores importantes revelando suas vulnerabilidades. Como Murray reconheceu, “quando você vai competir, quer ser positivo e otimista sobre as coisas, porque não quer revelar aos oponentes, aos caras contra quem está competindo, o quanto se sente mal”.

A entrevista coletiva dele na sexta-feira, para anunciar seu aposentadoria, acrescentou Murray, foi “mais ou menos a primeira vez que deixei todo mundo saber o quanto as coisas andavam ruins, o quanto era difícil”.

​Wozniacki passou pela mesma coisa. Ela soube antes do Aberto dos Estados Unidos do ano passado que os sintomas semelhantes aos de uma gripe que vinha sentindo nas semanas anteriores eram na verdade indicações de algo muito mais sério. Mas ficou calada sobre sua situação durante dois meses, esperando até sua partida final na temporada, em outubro, para conceder uma entrevista coletiva em Cingapura e revelar o diagnóstico.

“Eu não queria dar vantagem às rivais”, disse Wozniacki.

Ela rejeitou a ideia de que revelar completamente os seus problemas de saúde poderia beneficiá-la ao moderar as expectativas alheias.

 

“Creio que, porque sou muito competitiva, não desejo que coisa alguma seja uma desculpa”, disse Wozniacki, acrescentando que “me conheço, sei o que já realizei. Ou me orgulho de mim mesma por fazer o meu máximo ou me decepciono porque poderia ter me saído melhor; simpatia é algo de que não preciso”.

Wozniacki seguiu sua vitória no Aberto da Austrália de 2018 com mais dois títulos, em Eastbourne, um torneio preparatório para Wimbledon, em junho, e em um torneio Premier Mandatory em Pequim, em outubro – nos dois casos, segundo ela, enquanto exibia um ou mais sintomas clássicos de artrite reumática. A vitória em Pequim foi especialmente satisfatória, disse Wozniacki, “porque eu não sabia se seria capaz de jogar seis partidas em seguida. Aquilo realmente me deu confiança, e a convicção de que, se podia fazer aquilo, podia fazer qualquer coisa”.

Depois de Wimbledon, onde ela foi eliminada na segunda rodada, o resto do verão de Wozniacki foi dedicado a consultas médicas inconclusivas, e ela passou por diversas derrotas em rodadas iniciais de torneios. Wozniacki abandonou o torneio de Washington por causa de dores nos joelhos. No torneio seguinte, em Montreal, ela perdeu para Aryna Sabalenka na primeira rodada e acordou na manhã seguinte incapaz de erguer os braços para escovar os dentes. De lá, ela viajou a Cincinnati, onde abandonou a competição depois do primeiro set de sua primeira partida, porque não tinha energia para seguir adiante.

Wozniacki consultava médicos em todas as cidades a que ia, ela diz, e eles não encontravam problemas graves e a mandavam ir para casa depois de receitar medicamentos leves para resfriados e gripes.

“Os médicos fizeram exames de sangue, mas não levaram em conta a inflamação, que era a coisa estranha”, disse Wozniacki, que achou ainda mais estranho ser a tenista que se cansava primeiro, já que por muitos anos ela costumava superar adversárias aproveitando seu ótimo condicionamento físico.

De Cincinnati ela foi a Nova York, onde tem um apartamento, e insistiu em passar por uma bateria abrangente de exames, um dos quais revelou a artrite reumática. Wozniacki ficou aliviada por enfim ter um diagnóstico, mas preferiu não ler sobre a doença, porque queria se concentrar no Aberto dos Estados Unidos.

Depois de sua derrota na segunda rodada daquele torneio, para Lesia Tsurenko, Wozniacki fez uma busca por “artrite reumática” em seu celular, quando estava no táxi a caminho de casa, e rapidamente se informou sobre essa adversária nova e formidável. Wozniacki marcou uma consulta com uma reumatologista de Nova York, que aplacou seus temores.

“Ela disse que muita gente com quem trabalha leva vidas normais apesar da doença”, disse Wozniacki.

É claro que a vida da tenista, com suas viagens constantes e grande esforço físico, não é exatamente uma vida normal.

“Perguntei a ela o que aconteceria com o tênis, com a minha carreira”, disse Wozniacki. “E ela respondeu que eu não me preocupasse, que encontraríamos um caminho”.

Na partida da segunda-feira, Wozniacki expressou surpresa diante da tática de Van Uytvanck, que estava recorrendo a drop shots do fundo da quadra, como se para testar sua velocidade e resistência.

Mas Wozniacki descobriu como responder, e marcou diversos pontos em jogadas desse tipo. “Fiquei surpresa por chegar a essas bolas, rebatê-las bem. Até me elogiei por uma ou duas delas”, ela disse, rindo, sem tentar esconder sua alegria por descobrir que ainda tem muito a jogar.

Tradução de PAULO MIGLIACCI



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