O ex-guerrilheiro das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e deputado Jesús Santrich está desaparecido há mais de 60 horas, quando dispensou a segurança que lhe é designada pelo acordo de paz como ex-combatente, no departamento (estado) de Cesar, próximo à fronteira venezuelana.

Até dois meses atrás, Santrich estava preso, desde abril de 2018, por supostamente ter enviado aos EUA um carregamento de 10 toneladas de cocaína depois de ter-se acolhido ao acordo de paz entre o Estado colombiano e a ex-guerrilha, agora desmobilizada.

Desde então, vinha sendo investigado pela Justiça Especial de Paz, que considerou não haver evidências suficientes de que o envio tivesse sido feito antes ou depois de assinado o acordo, em dezembro de 2016.

Se tiver sido antes, Santrich poderia ser anistiado. Se foi depois, pode ser julgado pela Justiça comum por isso. Sendo assim, a JEP o liberou e a Corte Suprema do país referendou a decisão.

Agora, como parlamentar —cargo que ocupa por conta de ter sido um dos negociadores do acordo de paz e ter conquistado um dos postos no Congresso reservados aos ex-guerrilheiros — , seu processo será julgado pela Corte Suprema.

A próxima audiência a que deve comparecer é no dia 9 de julho. Caso não compareça nem envie uma justificativa, será considerado um fugitivo.

O fato de ele ter abandonado a custódia e ter desaparecido em Cesar levou a especulações de que ele poderia estar viajando para o território venezuelano onde estão os acampamentos clandestinos dos dissidentes das Farc.

Se isso ocorrer, Santrich não será o primeiro líder da ex-guerrilha a deixar o acordo de paz e entrar para a clandestinidade, o mesmo fez Iván Márquez, até então número dois das Farc e também com cargo no Congresso.

O dirigente do agora partido Farc (Força Alternativa Revolucionária do Comum), Rodrigo Londoño repudiou a atuação de ambos e pediu a reapresentação de Santrich junto à sociedade.

As ações de Santrich estão tendo impacto nas instituições colombianas. Primeiro, por ter causado a ira do presidente Iván Duque, que teve derrubada do Congresso sua tentativa de alterar o estatuto da JEP.

O mandatário colombiano queria que os crimes de narcotráfico, como os de que Santrich é acusado, não fossem passíveis de ser anistiados —como são pelo atual acordo.

A liberação de Santrich também provocou a renúncia do procurador-geral do país, Néstor Humberto Martínez, homem de confiança do ex-presidente Álvaro Uribe, presidente do partido Centro Democrático, a que pertence Duque e que sempre se posicionou contra o acordo de paz.

Santrich também tem um pedido de extradição em trâmite, a pedido dos EUA, por conta deste e de outros carregamentos de drogas que supostamente vinha enviando ao país do norte.

Na próxima semana, os colombianos viverão na expectativa da volta ou não de Santrich até o dia de sua audiência, em 9 de julho, porque dela depende, em parte, a popularidade do acordo de paz ante a sociedade e a própria credibilidade da Justiça colombiana.

Se Santrich de fato se refugiar na Venezuela, trará ainda mais uma dor de cabeça para a tensa relação entre os dois países, uma vez que a Colômbia acusa Maduro de estar dando cobertura a dissidentes das Farc e a integrantes do ELN, que há tempos já ocupam parte do território e se declaram leais ao ditador venezuelano.



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