Operações policiais de alcance nacional para deter milhares de membros de famílias imigrantes sem documentos nos Estados Unidos foram marcadas para começar no domingo, de acordo com dois funcionários e um ex-funcionário do Departamento de Segurança Interna.

A operação, cujos detalhes finais não estão decididos, conta com o apoio do presidente Donald Trump e havia sido adiada anteriormente, em parte por conta de resistência entre funcionários da própria agência de imigração americana.

A ação será conduzida pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) ao longo de vários dias e incluirá deportações “colaterais”, de acordo com os funcionários, que falaram sob a condição de que seus nomes não sejam revelados. Nesse tipo de deportação, as autoridades podem deter imigrantes que estejam por acaso no local, ainda que eles não sejam alvos diretos das batidas.

Quando possível, membros de uma mesma família detidos ao mesmo tempo serão encaminhados para os mesmos centros de detenção familiares no Texas e na Pensilvânia. Mas devido a limitações de espaço, alguns deles podem terminar detidos em quartos de hotel até que seus documentos de viagem possam ser preparados. O objetivo do ICE é deportar as famílias o mais rápido possível.

As fontes informaram que o ICE tinha por alvo pelo menos 2.000 imigrantes que estão sob ordens de deportação —alguns por não terem comparecido aos tribunais— e que continuam ilegalmente nos Estados Unidos. Ações devem ser realizadas em pelo menos dez grandes cidades.

As famílias que são alvo da operação cruzaram a fronteira recentemente. O governo Trump acelerou o processamento de sua situação migratória no fim do ano passado. Em fevereiro, muitos desses imigrantes foram notificados de que deveriam se apresentar a um escritório do ICE para deixar os Estados Unidos, disseram os funcionários entrevistados.

Matthew Bourke, porta-voz do ICE, afirmou em comunicado na quarta-feira (10) que a organização não comentaria detalhes específicos das operações, a fim de garantir a proteção e a segurança de seu pessoal.

 

A ameaça de deportação abalou comunidades de imigrantes em todo o país, causou reações negativas de políticos e policiais locais e fomentou divisões no Departamento de Segurança Interna —o órgão federal encarregado de implementar as deportações. O objetivo do governo Trump é usar a operação como demonstração de força para dissuadir famílias de imigrantes de viajarem à fronteira sudoeste dos Estados Unidos, disseram as fontes.

Agentes expressaram apreensão quanto à detenção de bebês e crianças pequenas, disseram as fontes. Eles também apontaram para a possibilidade de que as operações tenham sucesso limitado, porque já estão circulando nas comunidades de imigrantes dicas sobre como evitar captura —por exemplo, se recusar a abrir a porta quando um agente do ICE chegar, já que eles não têm direito legal de entrar em moradias.

Advogados que defendem imigrantes costumam apresentar petições para reabrir os processos sobre as famílias imigrantes, o que pode retardar muito, se não evitar de vez, sua remoção dos Estados Unidos.

No mês passado, Mark Morgan, então diretor do ICE, sinalizou que os agentes da organização acelerariam seus esforços para deter famílias. Dias antes da data marcada para o início das operações, Trump revelou o plano no Twitter, apanhando de surpresa os agentes do ICE, cuja segurança podia se ver comprometida como resultado da revelação prematura.

No começo de junho, Kevin McAleenan, secretário interino da Segurança Interna, instruiu a Morgan que suspendesse a operação. McAleenan não era a favor das ações, disseram pessoas do governo na época, em parte pela preocupação de que pais presentes ilegalmente nos Estados Unidos se vissem separados de filhos que sejam cidadãos americanos.

Morgan então pressionou Trump diretamente pela realização das ações. Ele agora é comissário do Patrulha de Fronteira, outra divisão do Departamento de Segurança Interna.

Em uma reunião tensa com funcionários da Casa Branca em 21 de junho, dois dias antes da data em que as ações estavam marcadas para começar, McAleenan voltou a delinear os desafios da operação, entre os quais a separação de integrantes de famílias e a logística de abrigar os detidos até que possam ser retirados do país. Se for constatado que pais têm filhos cidadãos dos Estados Unidos, por exemplo, agentes do ICE terão de esperar com as crianças em um quarto de hotel até que o parente as busque.

Funcionários da Segurança Interna também se preocupavam com a possibilidade de que muitas das famílias que o governo esperava prender tivessem abandonado os endereços que constavam para elas no ICE, depois de Trump tuitar sobre os planos da agência.

Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Deputados, ligou para Trump depois de seu tuite e instou que ele suspendesse a operação, que ela definiu como “desalmada”, em um comunicado distribuído horas mais tarde.

Trump então tuitou que adiaria a operação a pedido dos democratas. Mas também ameaçou retomar as deportações caso os democratas se recusem a colaborar com os republicanos para “desenvolver uma solução para os problemas de asilo e lacunas na Fronteira Sul”.

Dias mais tarde, o Senado aprovou um pacote de assistência humanitária de US$ 4,6 bilhões para a fronteira.

As travessias por imigrantes se reduziram depois de maio, quando 144,2 mil imigrantes foram capturados na fronteira sudoeste dos Estados Unidos —um total mensal recorde para os últimos 13 anos.

Na sexta-feira, Trump disse que as ações começariam “em breve”.

“O que afirmo é que eles entraram ilegalmente e vamos removê-los legalmente”, disse o presidente a jornalistas.

Tradução de Paulo Migliacci



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