As três filhas adolescentes de Darren O’Brien foram vítimas de bullying na escola. Segundo o O’Brien, elas foram empurradas para dentro de armários em vestiários; uma delas teve uma conversa gravada sem seu conhecimento, e outra ouviu que ela faria bem em se matar.

O’Brien, que tem 33 anos e trabalha numa fábrica de papel, disse que já implorou à direção da escola, aos professores e a uma orientadora escolar que encontrassem um jeito de acabar com o abuso, mas que nada fez muita diferença.

Agora ele espera que uma proposta nova feita na cidade de Wisconsin Rapids, no Wisconsin, onde suas filhas estudam, possa ajudar a coibir o assédio nas escolas da região. A proposta é de obrigar os pais a pagar multa no valor de US$ 313 (R$ 1,2 mil) se seus filhos cometerem bullying contra outros estudantes.

Craig Broeren, superintendente das escolas públicas de Wisconsin Rapids, disse que no outono passado pediu às autoridades de dois municípios que avaliassem a política de seu distrito escolar em relação ao bullying.

Mas a revisão ganhou urgência adicional em fevereiro, quando vieram à tona mensagens online aconselhando uma aluna da sétima série a se matar. A divulgação das mensagens levou a público o bullying cometido em salas de aula.

Broeren disse que não poderia falar sobre alunos ou queixas específicos, mas que o distrito escolar leva a sério qualquer denúncia de bullying e está disposto a tentar qualquer medida que possa combater esse problema complexo.

Para isso, ele disse, é preciso que os pais tomem consciência do comportamento de seus filhos e ajam decisivamente para mudar esse comportamento.

“O bullying é por sua própria natureza algo que não é feito abertamente”, disse Broeren. “Um aluno não grita insultos no corredor do colégio, onde pode ser ouvido por adultos.”

Wisconsin Rapids não é a única cidade a procurar uma solução ao problema do bullying junto aos pais dos autores do bullying, que todo ano atinge 20% dos escolares de 12 a 18 anos, segundo o Departamento de Educação.

Vários outros municípios e pelo menos uma Câmara dos Deputados estadual já avaliaram a possibilidade de multar –ou até colocar na prisão— os pais cujos filhos cometem bullying.

Mas nos lugares onde leis desse tipo foram aprovadas, as penalidades raramente chegaram a ser impostas. As autoridades locais compararam as medidas às leis sobre falta às aulas, atuando mais como medidas de dissuasão que como castigo.

Mesmo assim, alguns críticos acham que as leis podem acabar punindo pais injustamente pelos atos de seus filhos.

Amanda Nickerson, que dirige o Centro Alberti de Prevenção de Abusos e Bullying na Universidade de Buffalo, duvida que a possibilidade de ser multados motive os pais a de repente de envolverem em um esforço para mudar o comportamento de seus filhos.

Para ela, para conseguir a adesão dos pais é preciso promover reuniões entre eles e os professores para discutir maneiras de incentivar bons comportamentos, antes de pensar em aplicar qualquer tipo de penalidade.

Quando as autoridades multam pais pelo bullying cometido por seus filhos, “há muitos passos entre o castigo e a mudança de comportamento da criança que são passados por cima”, explicou Nickerson.

Sem esses passos intermediários, “os pais provavelmente ficarão revoltados e acharão que a escola ou o tribunal estão exagerando e agindo de modo injustificado”.

Uma versão mais intransigente da legislação pendente em Wisconsin Rapids já está em vigor em North Tonawanda, no Estado de Nova York, perto de Buffalo, onde pais podem ser multados em US$ 250 (R$ 970) e sentenciados a até 15 dias de prisão quando seu filho comete bullying.

Luke Brown, o assessor jurídico da prefeitura, disse que desde que a lei entrou em vigor, em 2017, a polícia já enviou advertências a alguns pais, mas ainda não prendeu nem multou ninguém.

“Espero que nunca cheguemos a isso, mas é bom contar com essa possibilidade como mais uma ferramenta”, disse Brown, falando da lei. “Antes da lei, os pais sabiam que não haveria repercussões.”

Na Pensilvânia, o deputado democrata Frank Burns propôs uma legislação que prevê multas de até US$ 500 (R$ 2 mil) para pais se seus filhos continuarem a cometer bullying contra outras crianças depois de receber advertências e ter reuniões com a direção da escola.

Ele disse que a reação à proposta está sendo ambígua e que o projeto de lei está parado em um comitê.

A legislação adotada em Wisconsin Rapids segue o modelo de uma lei aprovada em 2015 em Plover, Wisconsin, uma cidade pequena que promulgou uma das primeiras leis contra bullying que penaliza os pais.

Desde então a polícia de Plover enviou menos de uma dúzia de cartas de advertência a pais e não chegou a impor a multa de US$ 124 (R$ 480) em nenhum caso. Mas o chefe de polícia da cidade, Dan Ault, enxerga nisso uma vitória, dizendo que a polícia deu às famílias uma ferramenta para coibir o bullying.

Segundo Ault, se pais pagam por um objeto que seu filho quebra em uma loja, eles também deveriam ser responsabilizados quando seu filho comete bullying contra outros estudantes.

“Sabemos que o bullying é um comportamento aprendido”, ele comentou. “As pessoas mais importantes na vida dos filhos são os pais. Cadê a ligação?”

Tradução de Clara Allain 



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