Quem me conta como é ser mulher, negra, lutadora de MMA e surfista é Gabriella Fernandes, 25 anos, brasileira, nascida no Rio de Janeiro, radicada na linda Ponta Negra, litoral do Rio Grande do Norte, terra dos surfistas Jadson André, Gilvanilta Ferreira e incontáveis outros talentos

Filha de mãe branca e pai negro, Gabriella sentiu, ainda muito pequena, que a cor da sua pele, ou ainda seu cabelo, podiam revelar no outro algo de desumano. “Devia ter uns 8 anos, não me lembro, mas era bem pequena. Ela falou algo bem racista”, conta a mulher que apesar de ser capaz de nocautear homens de igual pra igual, não se atreve a repetir as palavras que ouviu no primeiro insulto racista que sofreu de uma colega da escola.

Assim como Jay-Z, exemplo vivo do que é ser capaz de driblar estatísticas, e que ao ser entrevistado por David Letterman, não se atreve a pronunciar a tal palavra. “A palavra com N”, diz ele; assim como o astro do hip hop, que ignora termos, Gabriella parece não fazer questão nenhuma de dar atenção ao sofrimento que sofreu ainda criança.

Ao invés disso, a jovem lutadora prefere falar com orgulho
da mãe, Dona Maria de Lurdes, 58 anos, que criou quatro filhos sozinha. “Não
tenho contato com ele”, conta, referindo-se ao pai ausente.

A surfista e lutadora está à espera do visto para embarcar
para Miami, a terra das oportunidades e grandes lutas de MMA. “Estou com um
contrato assinado, só falta o visto”, diz ela.

Raiva faz bom lutador?

Se mar calmo nunca fez bom marinheiro, a lógica parece não se
aplicar quando o assunto é o ringue. “Se eu sentir raiva vai abalar meu
emocional. Sou técnica”, me explica ela quando pergunto de onde ela tira
motivação para esbofetear adversárias.

“Desde pequena gostava de lutar. Fiz boxe, taekwondo, jiu-jtsu”, conta. A surfista, que hoje só cai na água pra relaxar entre um treino e outro de porradaria pesada, já participou de alguns campeonatos de surfe. “Eu amo surfar, mas meu negocio é a luta mesmo”.

Treino pesado

Muito treino, alternado com horas de trabalho na recepção de
um hotel. Assim é a rotina da carioca radicada no Rio Grande do Norte. Quando
pergunto como é possível ser lutadora de MMA e trabalhar em um hotel, ela
explica que só trabalha alguns dias da semana. “O dono do hotel é também meu
empresário. Então, consigo trabalhar quatro dias da semana e nos outros, treino
pesado”.

São em média doze treinos por semana, muitas sessões de
fisioterapia e uma característica que segundo Fernandes é primordial para uma
lutadora de sucesso. “A pessoa tem que aprender a apanhar”.

Apesar de ter aprendido a tomar porrada, a lutadora acumula
muito mais vitórias do que derrotas. A maioria das lutas que fez como lutadora
de MMA profissional venceu por nocaute. Ou seja, mal apanhou. Mas ela garante,
em tom de brincadeira, que mesmo assim gosta de apanhar, mas obviamente,
prefere bater.

Infância feliz

Gabriella não faz o tipo José Aldo ou tantos outros
lutadores que transformaram dor e passados violentos em pancadaria. A atleta
garante que apesar da ausência do pai, sua infância foi feliz e graças a sua mãe
nunca faltou nada.

O que move a atleta são exemplos como Victor Belfort.“Tem
muitas histórias tristes e de atletas que superaram tragédias e tal, mas tem
exemplos como o Belfort, que sempre foi muito técnico e até hoje é um dos
maiores lutadores do mundo na minha opinião”.

Quanto vale o show?

Quando pergunto a ela qual a grana que recebe pra subir no
ringue, ela responde que nenhuma, pelo menos por enquanto. “Na verdade eu pago
para lutar”.

Porém, a realidade parece estar próxima a mudar, já que a lutadora
acredita que sua ida à Miami pode transformar de vez sua trajetória nos
ringues, ou octógonos, ao redor do planeta.

Dear Mum

Durante a entrevista pelo Skype, consigo notar uma escrita
em seu braço, pergunto do que se trata a tatuagem e ela responde: “Dear Mum
(querida mamãe)”, diz ela com um largo sorriso. Pergunto se há outras tatuagens
e ela diz que sim. “Uma cruz nas costas, sou cristã”.

Além de Jesus e dona Maria Lourdes, parece haver na vida lutadora
uma habilidade incrível de lidar com o machismo diário.

“O que eu mais ouço é se eu bato no meu marido, que eu nem tenho por sinal. Isso é machismo puro. As pessoas nem percebem que estão sendo machistas. Pedem pra pegar no meu braço, apertar e ver se é de verdade”, finaliza.

por Janaína



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