O verão de instabilidade política que Hong Kong atravessa contabiliza semanas de protestos, mas a invasão do Parlamento é divisor de águas.

Todo ano, o 1º de Julho, data do aniversário do retorno de Hong Kong ao domínio chinês, é marcado por protestos pacíficos, um programa de famílias inteiras no feriado. Dessa vez, foi diferente. Cerca de 500 mil pessoas saíram às ruas e um pequeno grupo decidiu subir o tom. A invasão do Parlamento e a vandalização do espaço diante das câmeras foram o ato mais audacioso e simbólico dos honguecongueses, que se opõem a lei de extradição e querem a manutenção das garantias civis no território autônomo chinês. Ações de alto risco como essa são desafio para a unidade do apoio ao protesto.

O projeto de lei foi engavetado, mas não descartado completamente. O pedido de desculpas de Carrie Lam, a chefe do executivo de Hong Kong, não convenceu e muitos pedem sua renúncia. O governo não recebeu representantes dos protestos e pena em formular uma estratégia para lidar com o crescente apelo por reformas políticas que garantam representatividade. O próspero paraíso fiscal no sul da China e suas liberdades nos moldes ocidentais são uma prova de fogo para a gestão de Xi Jinping que tem apertado o controle social do outro lado da fronteira.

A violência foi canalizada para a estrutura do Estado e não para outros grupos da sociedade. Retratos de parlamentares e os dizeres “República Popular da China” foram pichados, paredes e mesas também receberam caracteres em tinta preta. Atrás do palanque foi estendida uma faixa com os dizeres “não há arruaceiros, só um governo tirano”, uma resposta a tentativa das autoridades de criminalizar os protestos.

As manifestações acontecem sem líder, mas não houve caos. É auto-organizada com ajuda de aplicativos de mensagens, jovens voluntários com estações de mantimentos e placas com mensagens dando o “código de ética” das ações de desobediência civil. Ninguém tocou em livros. A livraria do Parlamento ficou intacta para preservar registros históricos e os “radicais extremistas”, como taxou o governo chinês, pagaram por bebidas da cafeteria deixando dinheiro dentro da geladeira. 

Em 2014, manifestantes não receberam concessões em troca do fim pacífico de 79 dias de ocupação nos arredores da sede do governo. Os líderes do Movimento dos Guarda-Chuvas enfrentam longos processos jurídicos, prisões ou exílio. Eles queriam que fosse cumprida a promessa de voto universal direto para as eleições de 2017, para chefe do executivo local. O pleito aconteceu com candidatos pré-aprovados por Pequim e levou Carrie Lam ao poder.

O governo está tendo sua legitimidade contestada. O Parlamento invadido essa semana é o mesmo que em 2016 encontrou um pretexto para desclassificar seis jovens eleitos que defendiam uma agenda pró-democrática. Na casa, somente quase a metade das cadeiras é ocupada por representantes escolhidos diretamente pela população. A maioria é controlada por parlamentares pró-Pequim, o que permite à China continental interferir nas regras e defender novas interpretações da “Lei Básica”, a Constituição do território.

Hong Kong é uma plataforma de comércio global que é vital para a China, mas vem sofrendo com uma crescente desigualdade social e aumento do custo de vida. No mercado imobiliário mais caro do mundo por quase uma década, jovens têm a certeza de que não importa o que fizerem, não terão dinheiro suficiente para comprar um apartamento. Uma geração que não experimentou a mesma ascensão social vivida pelos pais e que cultiva certa dose de desesperança. O suicídio de três manifestantes nas últimas semanas deixou no ar a ideia que a juventude pode estar disposta a muito mais, a tudo, até a morrer.

A China cobrou do governo do território uma resposta severa e implacável às  “atrocidades” cometidas. Essas manifestações acontecem no centro da ilha de Hong Kong, no coração financeiro da cidade e não na periferia ou no interior da China. A ação está literalmente na porta da sede do governo local e agora porta a dentro. Os mais importantes veículos de comunicação internacionais têm escritórios que ficam a minutos da linha de frente dos protestos. Um exército de fotógrafos registra cada movimento, enquanto não faltam celulares para transmissões ao vivo para todo o mundo. Qualquer reação tem e terá repercussão retumbante.



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