Equilibrar-se numa prancha dotada de rodinhas presas em eixos para deslizar sobre o solo e realizar manobras mirabolantes a princípio não parecia uma proposta com chances de sucesso na Olimpíada. Por isso, a inclusão do skate entre os esportes a serem disputados nos Jogos de Tóquio-2020 foi uma decisão ousada do COI (Comitê Olímpico Internacional).

A iniciativa, motivada pela ideia de atrair um público jovem, provocou mais interrogações do que certezas no primeiro momento. Segundo Eduardo Musa, o Duda, vice-presidente da CBSk (Confederação Brasileira de Skate), os próprios atletas temiam que a modalidade viesse a perder suas características.

Veterano no mundo dos esportes, diante de tal cenário eu também tive dúvidas, suspeitando de uma possível e mera “jogada de mercado”, que envolveria desde o comércio de material esportivo a vestimenta, música e arte, que são facetas da cultura do skate.

Esse era a minha incerteza sobre a questão, mas o receio ganhou outros contornos. A reversão, que já vinha sendo amadurecida, lentamente, acabou influenciada pelas disputas da etapa final da Street League, o Mundial de street, no último fim de semana, na Arena Carioca 1, construída no Parque Olímpico da  Rio-2016.

Ficou claro que o skate desperta emoção e oferece boas condições para o trabalho de TV.  O street é uma das duas categorias olímpicas, com seu espaço de manobras simulando paisagem urbana, bancos, escadas e calçamentos. A outra é a park, com rampas, paredes e bowls (pista com formato de piscina).

As ações espetaculares empolgaram os torcedores no Rio, que vibraram durante toda a competição. O evento mostrou o potencial do skate para se transformar em grande atração olímpica.

Essa nova fase da modalidade serve de afago para o torcedor brasileiro, uma vez que, com certeza, o país contará com representantes de ponta na Olimpíada, e chances de medalhas nos torneios em Tóquio.

No Mundial do Rio, os brasileiros conquistaram prata (Kevin Hoefler) e bronze (Felipe Gustavo), superados apenas pelo norte-americano Nyjah Huston. Entre as mulheres, a medalha de prata também ficou por aqui, com Leticia Bufoni, enquanto a japonesa Aori Nishimura levou a de ouro.

O Brasil tem vários skatistas entre os principais nomes do mundo na atualidade. É forte concorrente na disputa pelo máximo de três vagas por país em cada gênero nos torneios classificatórios para a Olimpíada. Em Tóquio, serão 80 concorrentes (40 em cada gênero, divididos nas especialidades street e park).

Aliás, é do Brasil um dos mais destacados astros da história do skate mundial, Bob Burnquist, que atualmente preside a CBSk (Confederação Brasileira de Skate). Criada recentemente, a entidade permite que o skate desfrute de mais liberdade para defender seus interesses e sua cultura que contemplam uma forte manifestação de juventude e um estilo de vida.

É esporte radical que exige criatividade, preparo físico, técnica, coordenação e muita habilidade. Acrescente-se a essas virtudes a coragem para enfrentar incontáveis tombos.

A prática do skate sempre desfrutou de um ambiente de descontração, seguindo sua própria cartilha. Com a inclusão olímpica, no entanto, teve de se adequar aos regulamentos da Wada, a agência antidoping internacional.

A Olimpíada virou um passo importante para esse esporte. Por enquanto, a impressão é que o COI teve uma visão correta ao abrir suas portas para a nova modalidade e, em contrapartida, o skate, sem abdicar de seus princípios, acertou ao topar o desafio olímpico.



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