​Ana Lia González, 33, e suas quatro companheiras bolivianas estavam há cinco dias esperando que o tempo melhorasse para começar a subida dos 6.962 metros do Aconcágua. Aguardavam no lugar chamado Plaza de Mulas, aos pés da montanha mais alta das Américas, na Argentina. 

Como a previsão não melhorava, decidiram usar a fé. Começaram o ritual da ch’alla, palavra aymara que significa oferecer algo à Mãe Terra, a Pachamama. Puxaram das bolsas coloridas folhas de coca que haviam trazido de casa, misturaram com álcool e enterraram no solo. No dia seguinte, o tempo liberou o começo da jornada. 

Conquistar o Aconcágua era um objetivo do grupo de cholitas —como são conhecidas as mulheres indígenas da Bolívia, de origem aymara e quechua— há meses. No dia 23 de janeiro, elas chegaram ao topo. A montanha foi a sexta escalada pelo grupo que se formou em 2015. 

Lilita, como Ana Lia é conhecida, conta que a ideia surgiu da curiosidade. Dora, 53, mãe dela e uma das escaladoras, passou a vida trabalhando como cozinheira para turistas que visitavam o país em busca de subir as montanhas dos Andes. O marido trabalhava como guia, conduzindo os grupos pelas trilhas. 

Dora sempre chegou perto do topo, mas nunca teve a chance de ir até ele. Nos metros finais, ficava para trás, no campo alto, com as coisas que levavam. Enquanto guias homens como o marido ganhavam entre US$ 100 e 150, equivalente a R$ 550, por subida, as mulheres recebiam menos de um terço do valor, cerca de US$ 40. 

Cada vez que algum turista retornava feliz, alimentava mais a curiosidade de Dora de ver o mesmo que eles. Quarenta anos antes, outra cholita, chamada Virgínia, havia escalado sozinha os 6.088 metros da Huayna Potosí, a 25 km de La Paz. 

Conversando com outras mulheres casadas com guias —Lídia, 53, Elena, 23 e Cecília, 34— e com a filha, elas decidiram que também poderiam chegar lá e criaram as Cholitas Escaladoras. 

Começaram pela mesma Potosí. Lilita, que nunca entendeu o motivo por que os turistas faziam questão de sofrer com as caminhadas, teve dificuldade. Os pais cuidaram dela a cada passo dos dois dias de subida. “Não acreditava que eu fosse chegar. Estava nervosa, mas de repente vi toda a cordilheira [dos Andes] e gostei”, lembra ela. 

Em seguida, escalaram o Acotango, um vulcão na fronteira com o Chile, Parinacota,, Pomarapi  e, finalmente, o Illimani, pico mais alto da Bolívia. 

A subida

O Aconcágua virou o próximo objetivo, porém, o orçamento era pesado. Para latino-americanos, não argentinos, o parque onde fica a montanha cobra uma taxa de US$ 720 dólares, algo como R$ 2.760, entre dezembro e janeiro. Somado a isso, teriam ainda gastos com passagens e hospedagem. 

O projeto foi viabilizado graças a uma campanha organizada pela equipe espanhola que está produzindo um documentário sobre o grupo. Na segunda semana de janeiro, as cholitas desembarcaram em Mendoza, na Argentina. Precisaram de três dias de adaptação na cidade de Horcones, antes de seguir para Plaza de Mulas, onde começaram a escalada. 

O caminho até o topo durou cinco dias. As cinco bolivianas e dois espanhóis da equipe de filmagem foram guiados por um casal de argentinos. Em alguns momentos, quando as veteranas de montanhas eram tratadas como principiantes, a relação ficava um pouco tensa. Em outros, quando o caminho era plano por duas ou três horas, elas aproveitavam para conversar.

No último dia, faltando uma hora para chegarem ao topo, um problema quase colocou a viagem a perder. Um dos guias começou a passar mal e precisou voltar para o último campo onde haviam parado. Por regras dos guias, três cholitas tiveram de voltar com ele. 

Lilita seguiu com Elena. Ela conta que deixar a mãe foi um dos momentos mais difíceis de toda a viagem. Mesmo com vontade de desistir, pensava no pai, que conseguiu chegar ao topo do Aconcágua alguns anos antes, para tirar forças. 

Quando chegou ao topo, mesmo no tempo seco, Lilita não se sentia cansada. “Foi difícil, foi uma sensação de vazio. Uma alegria [ter chegado lá], mas algo faltava por não ter minha mãe e as outras comigo”, diz ela. 

De saias

Na volta à Bolívia, as cinco mulheres foram recebidas como heroínas e entraram em uma maratona de entrevistas e homenagens. Nas redes sociais, o presidente Evo Morales parabenizou o grupo. “Ficamos surpresas, porque já tentamos uma reunião com ele e ele nunca respondeu. Agora queremos pedir apoio para continuar”, diz Lilita. 

Professora de educação infantil, Lilita se formou em turismo no ano passado. Desde pequena, ela ouvia da avó Tomasa que esperava que a neta estudasse para que “não fosse como ela”, uma cholita. Na escola, ela via as colegas mentindo que as mulheres que apareciam para buscá-las na porta, usando a pollera (saia típica), eram suas babás e não as mães. 

Por muito tempo, a palavra “chola” era um insulto. Cholitas não podiam ocupar cargos públicos, quando migravam do campo para a cidade tinham que se resignar a trabalhos domésticos. Há pouco, porém, isso começou a mudar. A decisão das Cholitas Escaladoras, que fazem questão de usar sempre as saias que as identificam, é mais um movimento para ressignificar sua identidade. 

“Para mim, é importante porque lembra a minha avó. A saia é um símbolo de luta, de mãe, porque mulheres aqui são muito fortes, arrumam dinheiro onde for preciso para manter seus filhos. E, às vezes, um pouco rebeldes”, afirma Lilita. 

Agora, o plano delas é conseguir apoio para conquistar novas montanhas. Pensam em escalar em países vizinhos, e em Mont Blanc, nos Alpes entre a França e a Itália. O sonho mesmo, no entanto, é o Everest, ponto mais alto do planeta, com seus 8.848 metros.

“É muito caro, mas se tivermos apoio, queremos continuar em movimento”, diz Lilita. 


 



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