Enquanto o mundo do século 21 discutia na semana passada o alcance da escalada na guerra comercial entre Estados Unidos e China, ou mesmo os efeitos das queimadas na Amazônia, um fantasma herdado da Guerra Fria mostrava perigosa vitalidade.

A Rússia anunciou, sem muito alarde, que irá reforçar suas fronteiras ocidentais devido ao aumento das tensões com os EUA e a Otan, a aliança militar liderada por Washington.

“Nós tomaremos medidas amplas para frustrar essas ameaças emergentes”, disse o ministro Serguei Choigu (Defesa) na quarta (21).

Não houve detalhes, mas analistas militares russos especulam a transferência de ogivas nucleares para a região de Kaliningrado, encrave europeu do Kremlin.

Também pode haver reforço de tropas junto aos países Bálticos e talvez maior cooperação militar com a relutante aliada Belarus —país que, como a Ucrânia, serve na visão de Moscou de anteparo estratégico entre forças ocidentais e russas.

Hoje, o Distrito Militar Ocidental das Forças Armadas já concentra 40% dos 900 mil soldados ativos do país.

Usualmente, afirmações como a de Choigu seriam lidas apenas como ameaças vazias, mas a animosidade entre a Rússia e o Ocidente tem crescido a níveis só vistos durante os anos em que soviéticos e americanos disputavam a primazia mundial.

A mais recente fratura foi o abandono, por parte dos EUA, do tratado que proibia a instalação de mísseis nucleares de alcance intermediário lançados do solo na Europa.

Era um anacronismo, mas de grande simbolismo: o acordo, de 1987, foi um dos que marcaram o começo do fim da Guerra Fria. Os americanos acusaram os russos de fazer um armamento que potencialmente quebrava o acordo, só para receber a mesma acusação de volta de Moscou.

Na segunda (19), Washington testou um míssil de cruzeiro com alcance intermediário de 500 km, dando pontos retóricos para o presidente Vladimir Putin, que viu no evento uma prova da intenção de Washington ao sair do tratado.

Na sexta (23), o russo determinou que todos os movimentos dos EUA sejam espelhados pela Rússia.Citou a afirmação feita pelo novo secretário de Defesa americano, Mark Esper, de que os americanos deveriam instalar mísseis de alcance intermediário na Ásia.

“Isso não nos deixa dúvida da real intenção dos EUA [ao deixar o pacto], que foi desamarrar suas mãos para instalar mísseis antes proibidos em diferentes regiões do mundo”, disse, segundo o Kremlin.

Há anos Moscou se queixa da instalação de antimísseis na Romênia e na Polônia. Os romenos já operam as baterias desde 2016, e os poloneses terão as suas prontas em 2020.

Para o Kremlin, os mísseis defensivos tiram o balanço de poder na região, além de poderem ser substituídos por modelos ofensivos para atacar alvos russos em menos de 10 minutos —enquanto os gigantes nucleares intercontinentais disparados dos EUA têm uma janela de cerca de meia hora até atingir o solo.

Essa ameaça acelerou o desenvolvimento de novas armas com capacidade nuclear por Moscou.Já os ocidentais alternam ceticismo com as promessas militares de Putin, cujas dificuldades podem ser evidenciadas pela explosão que atingiu um suposto míssil com uma duvidosa propulsão nuclear na semana retrasada, com acusações de que Moscou é quem começou a corrida.

Há outros fatores de tensão. Desde 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia da Ucrânia, a Otan criou forças de proteção com reforço de tropas na Polônia e nos três Estados Bálticos, nações ex-soviéticas particularmente temerosas de um avanço russo pela fronteira que compartilham com Moscou.São 7.200 soldados, 4.000 deles americanos. Analistas militares concordam, contudo, que é algo mais simbólico.

Além disso, Choigu citou o crescente envolvimento da Otan com dois países nórdicos que não estão na aliança, a Suécia e a Finlândia. Ambos os países aprofundaram seus laços como aliados prioritários da organização, participando de exercícios conjuntos e apoiando operações.

Putin, aliás, esteve na quarta em Helsinque para discutir cooperação bilateral com os finlandeses —ambas as nações estiveram em conflito próprio em 1939-40.



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