Ser chamado de atleta ainda soa estranho para muitos deles, mas os dançarinos de breakdance já começam a se acostumar com a possibilidade de seguirem uma carreira esportiva.

Isso porque o breaking, nome oficial da modalidade para o Comitê Olímpico Internacional (COI), está perto de ser incluído no programa dos Jogos de Paris, daqui a cinco anos.

No último mês, o COI aprovou provisoriamente a indicação feita pelo comitê de Paris-2024, que além da dança propôs a inclusão de escalada esportiva, surfe e skate no seu evento. Esses três esportes também estarão em Tóquio-2020.

Segundo Tony ​Estanguet, presidente do comitê organizador da Olimpíada da França, a escolha se adequa ao desejo de “trazer uma dimensão mais urbana e mais artística ao esporte”.

O aval definitivo do COI para as quatro modalidades deve acontecer no segundo semestre de 2020, após os Jogos do Japão, mas dançarinos mostram empolgação desde agora com a provável entrada na vida olímpica.

“Vai ser fundamental para a nossa cultura e ajudará muitos jovens. Tem famílias que ficam preocupadas quando o filho sai de casa para praticar, mas eu acredito que, com essa entrada, vai ter mais informação, e as pessoas vão ver que o que a gente faz é sério”, diz Alex José Gomes Eduardo.

Conhecido como Pelezinho, o b-boy (como são chamados os dançarinos) de 37 anos foi um dos jurados da etapa brasileira do Red Bull BC One, principal evento de breaking do mundo, realizado em São Paulo no fim de semana de 6 e 7 de julho.

Hoje, todas as confederações de esportes que participam dos Jogos recebem do Comitê Olímpico do Brasil uma fatia das verbas oriundas de loterias federais.

Para as entidades de modalidades estreantes em Tóquio (skate, surfe, escalada e caratê), o COB destinará cerca de R$ 800 mil neste ano, além de apoios pontuais voltados ao desenvolvimento dos atletas e à participação em competições.

Segundo o comitê, por enquanto ainda não há nenhuma relação oficial com entidades da modalidade no país. Isso acontecerá a partir do momento em que a federação internacional responsável pelo breaking indicar uma representante nacional.

Mas se os dançarinos mostram empolgação com as novas oportunidades que devem ser abertas no meio, também há focos de resistência. Um processo parecido com o que foi vivenciado pelo skate neste que é o seu primeiro ciclo olímpico.

No caso dos skatistas, o temor que a modalidade ficasse “careta” pelo formato da competição olímpica e pela obrigatoriedade de respeitar o código da Wada (Agência Mundial Antidoping) se reduziu ao longo dos anos.

Fabiana Balduína, 36, conhecida como “FabGirl”, tem longa vivência na cena do breaking e entende tanto os argumentos dos empolgados quanto dos resistentes. Para ela, ao ser considerada um esporte olímpico, a dança nascida em Nova York na década de 1970 ganhará uma nova vertente.

“Em sua origem, as batalhas eram feitas por uma questão de honra, você teve uma treta com alguém e vai resolver ali na roda. Mas também já vi muita porrada, ou o cara estar dançando e o outro descer a calça dele. Esse tipo de coisa não cabe em competição”, diz. “Nas ruas, você ganha status e é respeitado quando vence os rachas. Na competição, isso acontece por meio de títulos. O processo de relação de poder é muito diferente”.

Assim como entre os skatistas, no breaking há também quem defenda o consumo de maconha como parte do estilo de vida dos dançarinos, mas o uso da droga é proibida pela Wada durante competições.

“No breaking não é muito diferente não, tem muitos adeptos. Alguns grupos de referência no país faziam apologia e a molecada ia junto. A partir do momento em que você se torna atleta, a coisa muda um pouco. Eu nunca usei, para mim a dança já era suficiente para ficar muito louca [risos], mas tem uma galera que defende essa questão”, diz Fabiana.

No fim de junho, foi realizado pela Federação Internacional de Dança Esportiva (WDSF, na sigla em inglês) o Campeonato Mundial de Breaking, em Nanjing, na China, considerado um dos primeiros grandes testes para a formatação de um evento olímpico da modalidade.

Outra competição importante nesse processo foi a dos Jogos Olímpicos da Juventude, realizados em Buenos Aires no ano passado.

Cem b-boys e 60 b-girls de 67 países participaram do evento na China. O Brasil teve apenas um representante: Luan Carlos dos Santos, 28, conhecido como Luan San.

“Isso foi muito triste, porque o Brasil é considerado a principal força no continente e um dos oito melhores países do mundo no breaking”, afirmou o holandês Tyrone van der Meer, que trabalha em parceria com a WDSF.

Atualmente, países como Japão, Coreia do Sul, França, Holanda e Rússia estão entre as maiores potências do breaking.

Para Luan, as principais diferenças do Mundial em relação a outras competições das quais já participou foram a existência de um tapete vermelho para a entrada dos dançarinos e a realização de testes antidoping.

“No mais, foi como qualquer outra competição. Teve música de breaking, jurados capacitados e b-boys com muitos anos de dedicação. Se na Olimpíada for do jeito como eu tive a experiência na China vai ser tranquilo”, diz.



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