Brasil e França vivem a mais séria crise diplomática desde a chamada “guerra da lagosta”, na década de 1960, na opinião de diplomatas europeus e brasileiros ouvidos pela Folha.

Segundo os diplomatas, que pediram anonimato por temerem represálias, nunca na história da relação bilateral um presidente francês acusou abertamente um líder brasileiro de mentir, como fez Emmanuel Macron em comunicado nesta sexta-feira (23).E nunca um presidente brasileiro demonstrou seguidamente desprezo pelo mandatário da França, enquanto seu filho, deputado Eduardo Bolsonaro, replica um vídeo no qual um youtuber chama o presidente Macron de “idiota”.

O tuíte de Eduardo, cotado para assumir a embaixada do Brasil em Washington, foi considerado uma grosseria sem precedentes. A troca de farpas foi antecedida por uma campanha do Itamaraty nas redes sociais em que o ministério fazia comparações pouco elogiosas à França.

A tensão entre os dois países deve fazer com que, segundo diplomatas ouvidos pela Folha, o Itamaraty convoque para consultas o embaixador brasileiro na França, Luís Fernando Serra, gesto diplomático considerado grave.

Seria o ápice de uma série de desavenças. No fim de julho, Bolsonaro cancelou em cima da hora uma reunião com o chanceler da França, Jean-Yves Le Drian, e fez uma live cortando o cabelo no horário em que estaria reunido com o francês.

Os diplomatas ouvidos consideram que as tensões são graves o suficiente para reduzir muito as chances de o acordo entre União Europeia e Mercosul ser aprovado no congresso francês. 

Segundo diplomatas europeus, o governo não vai lutar por um acordo que é impopular entre vários setores, como agricultores e ambientalistas, e ainda por cima beneficiaria um presidente que os insulta.

Diplomatas brasileiros também afirmam acreditar que a crise de imagem gerada pelos incêndios na Amazônia pode afetar o ingresso do Brasil na OCDE, o clube dos países ricos. O processo havia sido destravado com o apoio do presidente americano, Donald Trump. 

O ministro do Meio Ambiente do Brasil, Ricardo Salles, deve ir à sede da OCDE em Paris entre 25 e 27 de setembro para explicar a membros da organização por que o Brasil acredita que suas políticas ambientais estão alinhadas com as preconizadas pelo órgão.

O ex-embaixador brasileiro em Washington Rubens Ricupero, um dos poucos que não se furta a fazer críticas públicas ao governo, afirma que a declaração de Macron, de que Bolsonaro mentiu, é muito grave. “Há uma enorme perda de imagem e soft power do Brasil devido à política ambiental”, diz.

Os dois países frequentemente divergem, mas em tom menos estridente. Em 2013, a então presidente Dilma Rousseff criticou a intervenção do exército francês no Mali, afirmando que o combate ao terrorismo não deveria “reavivar antigas tentações coloniais”.

A declaração foi muito mal recebida na França, onde a acusação de colonialismo é considerada ofensiva pelo governo. Bolsonaro também recorreu ao termo ao criticar as declarações recentes de Emmanuel Macron.  

Em 2010, o presidente Nicolas Sarkozy prometeu apoiar o Brasil em sua proposta de acordo nuclear com o Irã. 

Mas o francês acabou apoiando a então secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, que desprezou o pacto e acabou convencendo os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, entre eles a França, a impor sanções contra o Irã devido ao programa nuclear. 

O então presidente Lula teria se sentido traído, e esse teria sido um dos motivos para a decisão de comprar os caças suecos Gripen em vez dos franceses Rafale.

Em 1991, o então presidente francês, François Mitterrand, afirmou que “o Brasil precisa aceitar a soberania relativa sobre a Amazônia”. A declaração foi muito mal recebida.

A crise mais grave da história recente foi a chamada “guerra da lagosta”, ocorrida entre 1961 e 1963. Barcos franceses começaram a pescar lagosta no litoral de Pernambuco, revoltando os pescadores nordestinos. 

Na disputa diplomática, houve até a discussão insólita, alvo de chacota e marchinhas de carnaval na época, sobre a real natureza da lagosta: poderia ser considerada um peixe, que seria passível de captura, ou era um crustáceo? 

A crise levou à mobilização de navios de guerra de França e Brasil para a região, mas os países não foram às vias de fato. Foi nessa época que se atribuiu erroneamente ao general Charles de Gaulle a famosa frase “o Brasil não é um país sério”. Na realidade, o autor foi o então embaixador do Brasil na França Carlos Alves de Souza.

Na sexta-feira, Macron tentou reduzir a temperatura da crise e disse que um “ecocídio está se desenvolvendo em toda a Amazônia, não só no Brasil”.

Mas o líder francês escorregou no final, ao dizer que uma das metas seria “encontrar uma forma de boa governança”. “Precisamos envolver as ONGs e os povos indígenas mais do que já fazemos.” O governo Bolsonaro tem conhecida ojeriza a ONGs, e esse foi um dos motivos do cancelamento da reunião entre o presidente e o chanceler francês.

“Ele marcou audiência comigo. Aí fiquei sabendo que tinha marcado com o Mourão, tinha marcado com ONGs. Quem é que ferra o Brasil? ONGs”, afirmou Bolsonaro à época.


Passado de atritos entre Brasil e França

Guerra da Lagosta (1961-1963) O governo brasileiro autorizou a França a realizar pesquisas sobre viveiros de lagosta na costa nordestina. A delegação francesa, porém, driblou a autorização e passou a pescar os crustáceos clandestinamente. A situação mobilizou as forças armadas dos dois países, mas não houve confronto bélico. Da crise, surgiu a frase “o Brasil não é um país sério”, dita pelo embaixador brasileiro Carlos Alves de Souza

Acordo Nuclear com o Irã (2010)Sob mediação de Brasil e Turquia, o Irã assinou um acordo para a troca de urânio pouco enriquecido por combustível nuclear, no que o ex-presidente Lula chamou de “vitória da diplomacia”. Nicolas Sarkozy, então presidente da França, incentivara o acordo. No mês seguinte, recuou e votou, no Conselho de Segurança da ONU, por novas sanções contra o país persa

Intervenção Francesa no Mali (2013)A França enviou mais de 2.000 soldados para combater grupos rebeldes islâmicos no Norte do Mali. A ex-presidente Dilma Rousseff criticou a ação e defendeu que o combate ao terrorismo não deveria violar direitos humanos ou “reavivar antigas tentações coloniais”. Sua fala não foi bem recebida



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