O educador físico Bruno Sartori realizou seu sonho de disputar a São Silvestre no ano passado. Durante os 15 km de prova, ele teve a companhia de Alexandre Lima Barros, 38, atleta com paralisia cerebral.

Ambos se conheceram há 13 anos, quando Bruno passou a trabalhar na ONG Casa de Davi, instituição de São Paulo que cuida de pessoas com autismo e deficiência intelectual e física, a maioria abandonada pela família.

Fazer o percurso da prova em 2h22min não foi uma tarefa fácil. A começar pela dificuldade em controlar a cadeira de rodas improvisada com uma rodinha de maca.

“Um membro da organização disse que não conseguiríamos. ‘Você tá maluco? Vão correr com essa cadeira?’, ele falou para mim”, conta Bruno, acompanhado de um sorriso de Alexandre.

A adaptação teve que ser feita pois o professor não havia conseguido um equipamento adequado emprestado. A mesma cadeira de rodas foi usada durante a Meia Maratona de São Paulo, disputada no último dia 11.

Interno desde 1988, Alexandre ficava isolado em seu quarto, introspectivo. Sua inserção na prática esportiva reverteu esse quadro.

“Ao longo dos anos houve grande melhora da autoestima dele. Quando treinamos, ele fica mais sorridente.

Hoje, eu marco treino e não preciso mais buscá-lo no quarto, ele vem sozinho. E muitas vezes chega antes de mim e diz que estou atrasado”, conta.

A amizade entre eles começou na piscina da instituição. Alexandre é o único cadeirante da ONG que nada sozinho.

Depois, Bruno resolveu introduzir a bocha na Casa de Davi. Na época, Alexandre era o interno que mais tinha perfil para a prática.

“Ele é bem inteligente, o cognitivo dele é bem preservado. A bocha tem 42 páginas de regras. Ele conhece todas”, afirma Bruno.

Alexandre tem dificuldade para falar, mas sabe ler, além de escrever com os pés.

Ele disputa a primeira divisão do Campeonato Paulista da categoria BC1, na qual os atletas precisam de auxílio para posicionar suas cadeiras a cada jogada.

As viagens para participar de campeonatos motivam outros internos da ONG. “O Alexandre virou referência na casa. Os outros perguntam como são os hotéis em que ele fica hospedado, vão até o quarto dele para ver as medalhas”, conta Bruno.

Mas a fama também traz responsabilidades. “Às vezes ele reclama de cansaço, quer ver TV, e eu digo a ele que a escolha [de ser atleta] foi dele, que ele precisa treinar para se manter competitivo”, diz o educador físico.

Questionado se Bruno pega no seu pé, Alexandre sorri e responde: “muito”.

O próximo objetivo da dupla é participar de prova de 24 km da Maratona de São Paulo, em 8 de abril.

Desta vez, ambos não terão que lidar com a cadeira improvisada. Alexandre e a instituição receberam a doação de três equipamentos. 

Contudo, Bruno diz que a Casa de Davi precisa de guias voluntários. Uma dificuldade, já que são necessários dois por cadeira —na última prova, a dupla foi ajudada pelo fisioterapeuta da ONG.

DOENÇA

A paralisia cerebral é causada por uma anomalia ou lesão no cérebro em desenvolvimento —entre o estágio fetal e os dois anos de idade—, caracterizada pela dificuldade do indivíduo no controle da postura e do movimento.

Segundo a médica Carla Andrea Caldas, fisiatra e neuropediatra do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, a prática esportiva é benéfica para pessoas com a doença.

“Indivíduos com paralisia cerebral fazem desde cedo fisioterapia e terapia ocupacional, e isso ao longo dos anos gera cansaço e desmotiva, principalmente na fase adulta. O esporte estimula e melhora a autoestima”, afirma.



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