Citado pelo ex-governador Sérgio Cabral (MDB) como um dos destinos de propina no COI (Comitê Olímpico Internacional), o russo Alexander Popov era visto pelo Itamaraty como um apoiador da candidatura do Rio de Janeiro para sediar a Olimpíada de 2016. Foi desta forma que o nadador campeão olímpico foi descrito pelo Ministério das Relações Exteriores a quatro dias da votação em 3 de outubro de 2009 em Copenhague. Para o corpo diplomático brasileiro, Popov era um apoiador declarado da Rio-2016.

O russo, na ocasião, não era apenas um eleitor do comitê, mas também membro da comissão de avaliação do COI sobre as candidaturas.

Cabral relatou ao juiz Marcelo Bretas que o russo foi um dos que receberam parte dos US$ 2 milhões (cerca de R$ 7,6 milhões) pagos ao senegalês Lamine Diack em favor da candidatura carioca para sediar os Jogos de 2016. Outro beneficiário foi, segundo o ex-governador, o ucraniano Sergei Bubka.

Os três compunham o colégio eleitoral do COI, que contava com 98 membros. A eleição é secreta em turnos consecutivos no qual a candidata menos votada é eliminada até restar apenas a vencedora. Disputaram, além do Rio de Janeiro, Chicago, Madrid e Tóquio –o que exigiu três rodadas de votação.

Os nomes dos ex-atletas foram informados, segundo Cabral, pelo ex-presidente do COB (Comitê Olímpico do Brasil) Carlos Arthur Nuzman, e o ex-diretor do comitê de candidatura da Rio-16, Leonardo Gryner, também réus na ação. Os dois são acusados de sugerir o pagamento a fim de garantir votos para a candidatura.

“Eu perguntei qual era a garantia: ‘Esses votos vêm de onde?’. Eles me garantiram que o Sergei Bubka recebeu vantagem indevida. Outro atleta, que não é do atletismo, mas segundo eles recebeu também é o russo Alexander Popov”, disse o ex-governador.

Bubka publicou em suas redes sociais que as acusações de Cabral são falsas. Popov disse nesta sexta-feira (5) que sequer votou no Rio de Janeiro na eleição. Essa, contudo, não foi a impressão deixada pelo russo ao corpo diplomático brasileiro.

O ex-atleta russo fez um relato entusiasmado sobre o Rio de Janeiro em maio de 2009 após viagem do comitê de avaliação do COI à cidade. O objetivo da visita era avaliar a estrutura da cidade com base no dossiê de candidatura apresentado.

Popov era membro da delegação como representante da comissão de atletas do COI e visitou todas as quatro cidades que concorriam para sediar o evento.

No dia 20 de maio de 2009, Popov encontrou-se com o embaixador do Brasil em Moscou na ocasião, Carlos Antônio da Rocha Paranhos. O diplomata relatou ter ficado com “a clara impressão de que Popov apoiará a candidatura do Rio de Janeiro”.

“Comentou, sem que se lhe perguntasse, que recusara convites recentes das embaixadas americana, espanhola e japonesa em Moscou”, escreveu, em referência aos países das concorrentes Chicago, Madrid e Tóquio.

No encontro, o ex-nadador disse que “a Comissão de Avaliação ficara surpresa e muito bem impressionada com o alto nível de preparação e profissionalismo que os esperava no Rio”.

“Afirmou que todas as garantias foram apresentadas para a execução do projeto e que as perguntas eram prontamente respondidas com clareza”, relatou Paranhos.

Popov, segundo o embaixador, elogiou até mesmo pontos considerados fracos na candidatura carioca, como o número de quartos de hotel e a violência urbana. Para o ex-nadador, as propostas apresentadas para essas fragilidades satisfizeram os membros da delegação.

O russo, de acordo com o relato, também destacou a importância da presença do ex-presidente Lula no dia da votação em outubro, em Copenhague. 

Dois meses antes, o russo demonstrava desconfiança em relação à candidatura carioca. Via, inclusive, dificuldades em razão do Brasil sediar dois anos antes a Copa do Mundo –a acumulação dos dois grandes eventos era vista como prejudicial.

Os dois encontros diplomáticos ocorreram antes do pedido feito, segundo Cabral, por Nuzman e Gryner para que fosse paga uma propina a alguns membros do COI. Segundo o ex-governador, a sugestão para que Diack recebesse os recursos foi feita na primeira quinzena de agosto.

Em 29 de setembro de 2009, quatro dias antes da votação, o Itamaraty produziu uma lista sobre as impressões obtidas pelos embaixadores brasileiros em todo o mundo sobre o posicionamento de 49 eleitores do COI.

Popov aparece com a classificação “manifestou apoio”. Bubka, “manifestou simpatia”, o que na linguagem diplomática significa “comentários positivos acerca da candidatura brasileira sem que, no entanto, o voto fosse explicitado”.

De acordo com Cabral, o objetivo da propina era garantir votos suficientes para não serem eliminados no primeiro turno da votação. Boa parte do esforço de campanha foi para garantir o segundo voto do colégio eleitoral. Temia-se, porém, a primeira rodada.

Na primeira, a cidade brasileira teve 26 votos, enquanto a norte-americana foi eliminada com 18. Caso a candidatura carioca tivesse perdido os até nove votos supostamente comprados, a cidade não teria passado.

Após a primeira rodada, o Rio manteve larga vantagem sobre as demais, tendo atraído a maioria dos votos dos eleitores das cidades eliminadas. Na última votação, superou Madri com 66 a 32 votos.

Os documentos do Itamaraty fazem parte do acervo da CGCE (Coordenaçao-Geral de Cooperação Esportiva) obtidos pela Folha por meio da Lei de Acesso à Informação. O órgão coordenou os esforços diplomáticos do país na candidatura olímpica.

Em julho de 2016, a Folha revelou que durante a campanha, diplomatas receberam de eleitores do COI pedidos de mimos e verba para projetos esportivos em seus países em troca de voto

A regra eleitoral do COI desestimula o contato direto entre diplomatas e membros votantes. Ela veda às embaixadas convites “para recepção que tenha como propósito qualquer forma de promoção da candidatura”.

O COI analisou, em julho de 2016, alguns documentos obtidos pela Folha e afirmou não haver infrações. Para o Itamaraty, a regra proibia eventos formais de promoção, não conversas como as relatadas nos documentos obtidos pela reportagem.

Nesta sexta, o COI disse que está cobrando esclarecimentos de seus membros e que adotou novas práticas “em relação à boa governança e, em particular, ao procedimento de eleição de cidade-sede.

A defesa de Nuzman afirmou que o ex-cartola é “absolutamente inocente” e que “toda a história que ele tem no esporte brasileiro, toda sua luta para conquistar essa Olimpíada, não foi por meio de compra de votos, mas por um trabalho honesto”.

Gryner não se manifestou sobre o depoimento de Cabral.



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